19 setembro 2016

As minhas férias

Nestas férias tive 5 dias a que posso chamar mesmo de férias: 5 dias dedicados exclusivamente a fazer aquilo que me apetecia, sem pensar nas necessidades e desejos de outros, nem nas minhas obrigações.
Foram 5 dias a subir de bicicleta desde Tavira até Tróia, sozinha.
Há já bastante tempo que queria voltar a fazer isto, mas a dificuldade em encontrar companhia para as alturas em que eu podia, conciliar com pessoas que quisessem fazer o mesmo percurso, na mesma velocidade, levou-me a ir adiando consecutivamente.
Desta vez a minha irmã deixou-me pendurada. Primeiro ainda havia hipóteses de darmos umas voltas, depois já nem isso. 
Mas na minha cabeça a ideia já estava montada, a minha filha já estava com avó e eu e a bicicleta já estávamos no Algarve. Porque não subir?
Enviei alguns sms's para angariar companhia e uma das respostas foi "Porque não vais a solo?" 
Para mim o grande problema eram as noites: não queria carregar com uma tenda (para além de tudo resto). Comecei então a enviar sms's a pedir guarida em certos pontos do percurso. Consegui! E parti.

No primeiro dia fiz muita estrada, mas ainda fiz um pouco de terra. Tinha receio de não conseguir pedalar os 93km que me separavam da primeira casa. Mas correu tão bem que ainda fiz mais 10km, só para me divertir.

Dormi mesmo à beira da 125, com os carros a passar a noite toda, mais os camiões e motas. Uma barulheira! Depois de adormecer, foi um descanso.

No segundo dia, um pouco magoada nos joelhos, resolvi não puxar muito - ainda faltavam 4 dias. Neste dia fiz bastantes trilhos de terra. Cansei-me muito, suei bastante, tive imensas moscas à volta da cara, mas cheguei a Aljezur a meio do dia. Descansei, ajudei amigos a montar uma festa, bebi imperiais, fui à praia (uma praia linda, de água transparente, sem ninguém), assisti a uma arrufo de namorados, jantei bem, dormi melhor. 

De manhã a neblina cobria o vale e ainda dei por mim a pensar que não ia ver o caminho, mas lá levantou e e apanhei um escaldão por não ter posto o creme antes. Na Zambujeira armei-me em valente e subi com a bicicleta pela mão o caminho que vai do porto dos pescadores até ás falésia. Foi o único momento em que pensei que estava a fazer uma grande estupidez. O perigo de cair foi real umas quantas vezes e fiquei tão cansada que às vezes mal conseguia levantar as pernas para subir. Chamei muitos nomes à minha bicicleta. O mais injurioso foi: "Mas tu agora tens rodas quadradas?! É?", quando ela se recusava a rolar por cima de um pedregulho com um metro de altura. No topo da falésia reconciliei-me com ela. E se enquanto escalava pela rocha com a bicicleta à mão pensava "Para a próxima dou a volta. Isto é muito perigoso", assim que me vi no topo reconsiderava "Tenho é de trazer umas cordas para puxar a bicicleta sem me arriscar a cair pela falésia".
Daí a até à próxima paragem foi canja. Em Almograve a água fria da praia soube-me muito bem e o ficar numa casa sozinha também. Tirei tudo da bicla, limpei-a, arrumei tudo de novo, descansei, li num quintal acolhedor e com uma chave de leite com café ao lado (tipo anúncio Nescafé: "I can see clear now the rain is gone... It's gonna be a bright, bright sunshiny day"). 
No dia seguinte ia ser só estrada. Fácil, pensei. Pensei mal: apanhei com vento contra o tempo todo. Nem a descer parei de pedalar. Só fiz um bocadito por terra, num trilho que foi dar à Ilha do Pessegueiro. 
Cheguei a Sines e fiquei e casa de uns amigos dos meus pais. Que luxo! Uma cama super fofa, toalhas lavadas, um quarto só para mim. Antes do jantar fui à praia (água muito transparente para uma praia entre portos de grande dimensão) e dei uma volta - vi uma exposição de fotografia e o castelo. Adoro todas partes antigas das cidades portuguesas. Ao jantar, quatro irmãos à volta dos sessenta anos falavam sem parar de tudo e mais alguma coisa, interrompendo-se uns aos outros constantemente. É muito bom ver famílias assim!
E por fim Tróia. Nunca tinha ido a Tróia. Julgava que tinha uma parte velha, a doca dos pescadores, um pouco de estrada em paralelepípedos. Não - é só turismo. Percebi porquê - a praia é linda. A água transparente, a vista da Arrábida em frente, o mato rasteiro. Gostei muito. Fico com pena de ser privatizado e caro, mas ainda consegui lá ir.
No regresso, de comboio, conheci um italiano a viajar há três meses de bicicleta. A onda dele é outra: é comida e alojamento grátis. Pede e vê se lhe arranjam. Se não, dorme ao relento. Foi para Sintra.

Correu muito bem. Esforcei-me o suficiente, descansei o suficiente, conheci pessoas, e percebi que não é complicado. Um dia repito. se for acompanhada vou, se não, talvez experimente o dormir ao relento, embora tenha gostado muito das companhias todos os dias.