04 fevereiro 2016

Tó Zé

Tó Zé morava na capital, oriundo de uma família rústica.
Filho mais novo, vivia sob as regras familiares "da terra". Desde a escola primária, Tó Zé vestia calções acima do joelho, com vinco, e penteava a franja para a frente, colada à testa, parando um pouco acima das escassas sobrancelhas e das faces eternamente rosadas, selo genealógico da ruralidade. Não era bonito, não era interessante, não era inteligente; dava-se com os colegas, mas não fazia parte daquele mundo urbano. Era, digamo-lo, parodiando o nome próprio, um xoné.
No 7º ano do secundário ocorreu o acontecimento que mudou a vida de Tó Zé: um acidente de viação, "na terra", permitiu-lhe chegar à escola com um vistoso penso branco na fronte. O alvo curativo possibilitou-lhe responder repetidamente ao "o que é que te aconteceu?", tornando Tó Zé, antigo aplaudidor de quantos reclamavam ufanamente os holofotes do recreio, no mais procurado orador da turma, seguido de grande turba presa ao imenso relato das voltas e reviravoltas da camioneta do primo lá "na terra", despojo de onde ele se tinha libertado vitorioso, mas de testa aberta e ensanguentada.
Mas a maior qualidade do penso branco foi obrigar Tó Zé a erguer a sua franja saloia, penteá-la para trás, forçando-a com gel a manter-se nessa forma galinácea, para que não implicasse com o curativo.
A incipiente crista, nascida da força das circunstâncias, e o recente estatuto de "homem vivido e triunfante" deram a Tó Zé um novo alento. Agora, já parte dos galifões da turma, permitia-se arrastar a asa às meninas, levantando-lhes descaradamente as saias para gáudio dos seus colegas. Respondia torto aos professores; ria alto nos intervalos, olhando de esguelha para os que não faziam parte do seu círculo, e de manhã, encostava-se ao balão da cafetaria, beberricando pretensioso a bica adulta. Desapareceram as calças de fazenda com vinco e surgiram as calças de ganga... de marca!

As faces permaneceram rosadas, mas a nova testa, reluzindo orgulhosamente abaixo da poupa gelificada deram a Tó Zé a confiança necessária para singrar no mundo e na vida, mesmo depois que a calvície o alcançou.

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