16 outubro 2016

Cena de rua - eutanásia

Uma mãe e um filho de uns 16 anos caminham lado a lado, sem mostrarem contacto nenhum um com o outro. 
A mãe traz uma gaiola de gato na mão. Quando passam por mim apenas me consigo aperceber de uma manta dentro da gaiola. 
A mãe tem os olhos vermelhos de choro. Ao lado, o filho, mais alto que ela, deixa as lágrimas escorrerem pela cara.
Aparentemente distantes, estão os dois unidos no luto.

19 setembro 2016

As minhas férias

Nestas férias tive 5 dias a que posso chamar mesmo de férias: 5 dias dedicados exclusivamente a fazer aquilo que me apetecia, sem pensar nas necessidades e desejos de outros, nem nas minhas obrigações.
Foram 5 dias a subir de bicicleta desde Tavira até Tróia, sozinha.
Há já bastante tempo que queria voltar a fazer isto, mas a dificuldade em encontrar companhia para as alturas em que eu podia, conciliar com pessoas que quisessem fazer o mesmo percurso, na mesma velocidade, levou-me a ir adiando consecutivamente.
Desta vez a minha irmã deixou-me pendurada. Primeiro ainda havia hipóteses de darmos umas voltas, depois já nem isso. 
Mas na minha cabeça a ideia já estava montada, a minha filha já estava com avó e eu e a bicicleta já estávamos no Algarve. Porque não subir?
Enviei alguns sms's para angariar companhia e uma das respostas foi "Porque não vais a solo?" 
Para mim o grande problema eram as noites: não queria carregar com uma tenda (para além de tudo resto). Comecei então a enviar sms's a pedir guarida em certos pontos do percurso. Consegui! E parti.

No primeiro dia fiz muita estrada, mas ainda fiz um pouco de terra. Tinha receio de não conseguir pedalar os 93km que me separavam da primeira casa. Mas correu tão bem que ainda fiz mais 10km, só para me divertir.

Dormi mesmo à beira da 125, com os carros a passar a noite toda, mais os camiões e motas. Uma barulheira! Depois de adormecer, foi um descanso.

No segundo dia, um pouco magoada nos joelhos, resolvi não puxar muito - ainda faltavam 4 dias. Neste dia fiz bastantes trilhos de terra. Cansei-me muito, suei bastante, tive imensas moscas à volta da cara, mas cheguei a Aljezur a meio do dia. Descansei, ajudei amigos a montar uma festa, bebi imperiais, fui à praia (uma praia linda, de água transparente, sem ninguém), assisti a uma arrufo de namorados, jantei bem, dormi melhor. 

De manhã a neblina cobria o vale e ainda dei por mim a pensar que não ia ver o caminho, mas lá levantou e e apanhei um escaldão por não ter posto o creme antes. Na Zambujeira armei-me em valente e subi com a bicicleta pela mão o caminho que vai do porto dos pescadores até ás falésia. Foi o único momento em que pensei que estava a fazer uma grande estupidez. O perigo de cair foi real umas quantas vezes e fiquei tão cansada que às vezes mal conseguia levantar as pernas para subir. Chamei muitos nomes à minha bicicleta. O mais injurioso foi: "Mas tu agora tens rodas quadradas?! É?", quando ela se recusava a rolar por cima de um pedregulho com um metro de altura. No topo da falésia reconciliei-me com ela. E se enquanto escalava pela rocha com a bicicleta à mão pensava "Para a próxima dou a volta. Isto é muito perigoso", assim que me vi no topo reconsiderava "Tenho é de trazer umas cordas para puxar a bicicleta sem me arriscar a cair pela falésia".
Daí a até à próxima paragem foi canja. Em Almograve a água fria da praia soube-me muito bem e o ficar numa casa sozinha também. Tirei tudo da bicla, limpei-a, arrumei tudo de novo, descansei, li num quintal acolhedor e com uma chave de leite com café ao lado (tipo anúncio Nescafé: "I can see clear now the rain is gone... It's gonna be a bright, bright sunshiny day"). 
No dia seguinte ia ser só estrada. Fácil, pensei. Pensei mal: apanhei com vento contra o tempo todo. Nem a descer parei de pedalar. Só fiz um bocadito por terra, num trilho que foi dar à Ilha do Pessegueiro. 
Cheguei a Sines e fiquei e casa de uns amigos dos meus pais. Que luxo! Uma cama super fofa, toalhas lavadas, um quarto só para mim. Antes do jantar fui à praia (água muito transparente para uma praia entre portos de grande dimensão) e dei uma volta - vi uma exposição de fotografia e o castelo. Adoro todas partes antigas das cidades portuguesas. Ao jantar, quatro irmãos à volta dos sessenta anos falavam sem parar de tudo e mais alguma coisa, interrompendo-se uns aos outros constantemente. É muito bom ver famílias assim!
E por fim Tróia. Nunca tinha ido a Tróia. Julgava que tinha uma parte velha, a doca dos pescadores, um pouco de estrada em paralelepípedos. Não - é só turismo. Percebi porquê - a praia é linda. A água transparente, a vista da Arrábida em frente, o mato rasteiro. Gostei muito. Fico com pena de ser privatizado e caro, mas ainda consegui lá ir.
No regresso, de comboio, conheci um italiano a viajar há três meses de bicicleta. A onda dele é outra: é comida e alojamento grátis. Pede e vê se lhe arranjam. Se não, dorme ao relento. Foi para Sintra.

Correu muito bem. Esforcei-me o suficiente, descansei o suficiente, conheci pessoas, e percebi que não é complicado. Um dia repito. se for acompanhada vou, se não, talvez experimente o dormir ao relento, embora tenha gostado muito das companhias todos os dias.










04 junho 2016

Djamila Boupacha

Veio parar-me às mãos um livro de 1966, tradução de Djamila Boupacha. Djamila Boupacha é uma mulher argelina, que em 1960 foi presa e torturada na Argélia por militares franceses.
Djamila fazia parte da FLN (Frente de Libertação Nacional), tendo colaborado levando medicamentos a militantes e também acolhendo alguns em casa. NO entanto foi acusada de ter colocado uma bomba num local público e foi por isso torturada. O livro conta o processo judicial e a forma como a libertação de Djamila foi conseguida, apesar de todos os entraves políticos, (i)legais e burocráticos que puseram ao processo.
O que para mim foi mais significativo nesta história foi saber a razão porque a Djamila decidiu ingressar na FLN. Ela trabalhava num hospital, na Argélia, onde esperava ser colocada como efetiva. A certa altura soube que as muçulmanas, que ela era, não seriam, nunca, colocadas como efetivas. Foi nesse momento que ela decidiu opor-se à colonização francesa.
A mim, que desconheço o processo de ocupação da Argélia, e a forma como a colonização foi feita, faz-me imensa confusão como é que um país, há pouco saído da II Guerra Mundial, de uma ocupação, de um infindável número de mortes que se auto-justificava pela "supremacia da raça" é capaz, depois de tanto ter sofrido e lutado pela igualdade, fazer exatamente o mesmo aos outros.
Como é que a França, 15 anos depois de ter sofrido genocídios por causa da religião, foi capaz de cometer exatamente o mesmo crime?!
Isto tudo, porque agora os muçulmanos (não todos, claro) querem que se considere a supremacia da sua religião, da sua raça. Alguém lhes deu a ideia, não? 
Em princípio, depois da grande descoberta de Charles Darwin, de que todos descendemos do mesmo "ser", dever-se-ia ter entendido que somos todos iguais. Caso houvesse alguns problemas de entendimento, a experiência pessoal ou nacional, de uma consideração infundada sobre os inferiores e superiores deveria ser suficiente para se saber que somos todos iguais. Mas não...
Na verdade, a religião ou a superioridade da raça é só uma desculpa esfarrapada para dizimar pessoas... O que me custa é que tantos a usem.

01 junho 2016

Perguntas inteligentes

Mãe, porque é que o dente-de-leão se chama dente-de-leão e não juba-de-leão? Os dentes do leão são aguçados e não redondos. A juba do leão é que é parecida.

19 maio 2016

A primavera ainda está aí?

Não se devia passar de Abril para Maio tão depressa.
Abril é aquele mês em que pensamos que todas as coisas que trazíamos vindas do inverno e do início do ano vão estar feitas e que, portanto, poderemos depois começar a dedicar-nos às coisas que queremos feitas antes do fim do Verão, pensando, estupidamente, que entretanto ainda vamos ter um mês de Primavera para ir viver com calma.
É tudo treta!
Ainda as tarefas de Inverno não estão finalizadas, quando nos apercebemos que não temos tempo para acabar as de antes do Verão. Saltamos de um stress em que ficamos neuróticos em casa por causa da chuva, sem conseguir despachar o trabalho com a rapidez necessária porque "precisamos de sol", para uma altura em temos de despachar tudo se queremos gozar umas semanas de férias sem estar sempre a pensar no trabalho.
Enfim, não há porque nos queixarmos do desaparecimento meteorológico da Primavera, porque no nosso tempo bio/neurológico ela também se foi.


17 abril 2016

Cal


29 março 2016

Xii!!!

Xii!!!!
Vai acabar Março e nem um post...
E tanta coisa na cabeça. Que penso, mas não escrevo.
Estas bombas... Estas bombas fazem-me pensar na forma como usamos o tempo. Como eu uso mal o meu tempo. As hesitações, as vergonhas, as dúvidas, os receios, para quê?! Depois acaba-se o tempo e não fizemos nada. Acaba-se a vida e não fizemos nada. Se uma bomba acabasse a minha vida o que é que eu teria pena de já não viver? E vivendo eu, o que faço para que um dia, quando a vida acabar de qualquer maneira, não me pergunte a mim própria o que é que eu tenho pena de já não viver?..


04 fevereiro 2016

Tó Zé

Tó Zé morava na capital, oriundo de uma família rústica.
Filho mais novo, vivia sob as regras familiares "da terra". Desde a escola primária, Tó Zé vestia calções acima do joelho, com vinco, e penteava a franja para a frente, colada à testa, parando um pouco acima das escassas sobrancelhas e das faces eternamente rosadas, selo genealógico da ruralidade. Não era bonito, não era interessante, não era inteligente; dava-se com os colegas, mas não fazia parte daquele mundo urbano. Era, digamo-lo, parodiando o nome próprio, um xoné.
No 7º ano do secundário ocorreu o acontecimento que mudou a vida de Tó Zé: um acidente de viação, "na terra", permitiu-lhe chegar à escola com um vistoso penso branco na fronte. O alvo curativo possibilitou-lhe responder repetidamente ao "o que é que te aconteceu?", tornando Tó Zé, antigo aplaudidor de quantos reclamavam ufanamente os holofotes do recreio, no mais procurado orador da turma, seguido de grande turba presa ao imenso relato das voltas e reviravoltas da camioneta do primo lá "na terra", despojo de onde ele se tinha libertado vitorioso, mas de testa aberta e ensanguentada.
Mas a maior qualidade do penso branco foi obrigar Tó Zé a erguer a sua franja saloia, penteá-la para trás, forçando-a com gel a manter-se nessa forma galinácea, para que não implicasse com o curativo.
A incipiente crista, nascida da força das circunstâncias, e o recente estatuto de "homem vivido e triunfante" deram a Tó Zé um novo alento. Agora, já parte dos galifões da turma, permitia-se arrastar a asa às meninas, levantando-lhes descaradamente as saias para gáudio dos seus colegas. Respondia torto aos professores; ria alto nos intervalos, olhando de esguelha para os que não faziam parte do seu círculo, e de manhã, encostava-se ao balão da cafetaria, beberricando pretensioso a bica adulta. Desapareceram as calças de fazenda com vinco e surgiram as calças de ganga... de marca!

As faces permaneceram rosadas, mas a nova testa, reluzindo orgulhosamente abaixo da poupa gelificada deram a Tó Zé a confiança necessária para singrar no mundo e na vida, mesmo depois que a calvície o alcançou.

02 fevereiro 2016

TRRIMM

TRRRIM (campainha da porta)
- Quem é?
- Bom dia, minha senhora. Eu e a minha colega, Maria José, queremos fazer-lhe uma pergunta. Se um dia um anjo aparecesse à sua porta...
- Com licença, vou desligar.
PLOC (telefone da campainha no descanso)

... se um dia um anjo aparecesse à minha porta, eu não saberia, porque não lhe dava tempo de dizer quem era...

26 janeiro 2016

a vida é uma pilha de pratos a caírem no chão


Fui ver António e Maria, no Teatro Meridional.
No final ficou esta frase na memória: a vida é uma pilha de pratos a caírem no chão.
O António Lobo Antunes é complicado, mas é de uma beleza acutilante.

06 janeiro 2016

Queixinhas e divulgação


Não me parece nada boa ideia gastar 10 milhões a empatar o trânsito em Lisboa. Seria preferível investir esse dinheiro em transportes ou habitação ou a salvaguardar os espaços verdes ou a criar novos onde é possível (Feira popular, por exemplo). Criar o caos no meio das árvores é irrealista, pretensioso, ridículo, obsoleto e um atentado à qualidade de vida dos lisboetas, que tem vindo a diminuir cada vez mais. Apenas os autocarros de turistas terão prazer em circular a 60km/h no meio das árvores. Ou se tiram as empresas de Lisboa e se colocam nos arredores, onde moram pessoas, ou se colocam pessoas em Lisboa, onde estão os seus empregos. Agora, afastar uns dos outros e depois criar obstáculos para que cheguem ao trabalho e a casa é de tal forma egoísta que penso que a única razão porque o fazem é por causa dessa praga chamada turismo, que cada vez mais transforma a cidade num local vazio de lisboetas e portugueses. Um dia destes estamos como no terceiro mundo: à porta dos monumentos a pedir uma moeda cada vez que nos tirarem uma foto da espécie em extinção: o alfacinha.

Estou há 5 meses com obras à porta de casa, para alcatroarem o piso. Noutras vias de Lisboa fizeram-no em 3 ou 5 dias. Gastaram 667 000€ na minha rua. Os moradores estão todos fartos e quando pudermos usar a rua normalmente não haverá nenhuma euforia, porque apenas regressamos à normalidade. Não sei o que se passa com a"alcatroagem", mas cheira-me que alguém mete dinheiro ao bolso. 
Tudo isto, para justificar o meu desagrado com esta coisa apesar de eu adorar o verde e desgostar de viadutos sobre as cidades. 
E eu nem uso a segunda circular...

NOTA POST SCRIPTA
Depois da minha queixinha li o plano, vi a memória descritiva e acho que os objectivos são bons: melhorar o ambiente, dar uma dimensão mais humana à cidade, enverdecê-la...
Já não sei...
As questões que coloco são:
- Terá de ser assim tão caro?
- Está assegurado que as pessoas que têm de usar a 2ª circular vão conseguir fazê-lo?
- O preço do projecto reflecte um trabalho bem feito? Por exemplo, nas imagens os candeeiros estão acima de árvores de copa frondosa: a luz chegará ao piso?
- Terá sentido transformar uma via rápida num via normal, com passeios? Estarão as pessoas seguras?
Enfim... 

05 janeiro 2016

Ano Novo, vidas novas

No Ano Novo os móveis ganham vida!
Há mais um par de olhos cá em casa!


04 janeiro 2016

Balanço do ano do blogue

Tem sido com pena que vejo decair de ano para ano o número de textos que posto.
A vontade é pouca, a preguiça é muita. 
Queria que este fosse um espaço, um meio que me obrigasse a escrever, principalmente a descrever, expor ideias e opiniões, contar episódios, etc. que são coisas que dão trabalho. 
Dá trabalho expor bem uma ideia, usar palavras adequadas, descrever uma situação para que quem leia retire da leitura exactamente o que quem escreve sentiu na tal situação. Expor uma opinião de forma fundamentada é um óptimo exercício, não só tentar que outros partilhem das nossas opiniões, mas para nós mesmos solidificarmos a nossa.
Escrever custa e escrever bem custa bué.

Só contra a quantificação, a avaliação pelos números, porque põe quase sempre de lado a qualidade, quando não a impede. No caso específico, lamentar o reduzido número de posts é um lamento pela falta de vontade que me tem movido na escrita (e em muito do resto da vida) e que no presente é um verdadeiro problema porque tenho uma tese inteira para escrever.

Queria exercitar-me aqui, para ganhar estaleca e à vontade para a escrita académica. Mas não aconteceu. Faço pequenos esforço, solto parágrafozinhos que mais não são que um pequeno aliviar da consciência pela tarefa que me tinha proposto.

Não escrever porque na vida não acontecem coisa não é razão. A maior parte do tempo escreve-se sobre o que não acontece. Portanto, desejos para 2016? Claro! Promessas? É melhor não...