23 abril 2015

O casaco

A Mariana tem um casaco de que gosta. Ofereceu-lhe o avô e é branco. Foi oferta de Natal e no início do ano muito andou com ele vestido e sempre muito orgulhosa. Só o tirava quando eu dizia que era preciso lavar, porque um casaco branco suja-se muito.
Depois parou de usar. Quando lhe perguntava porque não o vestia respondia que era para não se sujar.

Há dias foi convidada para uma festa de aniversário num campo de futebol. Ficou felicíssima por ser das poucas raparigas convidadas e por o ter sido porque as suas qualidades de jogadora tinham suscitado admiração por parte do aniversariante. 
No meio de toda essa alegria  diz-me "E posso vestir o casaco que o avô me deu porque ele é desse clube!" 

Pára tudo!

Então ela não vestia o casaco porquê?! Afinal a questão da preservação do casaco não tinha nada a ver com o assunto.

Pedi-lhe que me explicasse e respondeu-me que quando levava o seu casaco preferido para a escola os amigos e colegas gozavam com ela, chamavam-lhe nomes, gritavam-lhe "BUU!!!" quando ela passava num corredor. Entre todos esses a melhor amiga e os pais dela, de quem a Mariana gosta muito. 

Quando a Mariana começou a dizer que gostava de mais de um clube de futebol não liguei, mas depois disto fico a pensar que os clubismos de futebol são uma espécie de xenofobismo muito enraizada em Portugal, dos quais os próprios xenófobos nem se dão conta. Pessoas que se consideram tolerantes e que são defensoras da liberdade de escolha são capazes de insultar uma criança até ela se sentir desprezada e maltratada apenas porque não veste uma camisola da cor do seu clube. Mais, a Mariana passou a gostar (ou a dizer que gostava) de outro clube para agradar a outras pessoas, que ela preza, mas que só a tratam bem enquanto disser vivas ao mesmo clube. Quando não, injuriam-na.

Todos temos o direito à diferença, a gostar do que nos dá prazer, por isso inculcar desde crianças o medo de ser desprezado por ter gostos próprios é acabar com a identidade, espontaneidade, honestidade e liberdade de uma criança. 

A Mariana tem uma óptima relação com o futebol: gosta de jogar à bola e joga bem. Os clubes que se lixem. 

2 comentários:

gralha disse...

O meu filho bem sabe o que é sofrer (agora) por ser do FCP em Lisboa. Mas isso forma carácter :)

mm disse...

Mas a minha filha prefere não sofrer e não formar carácter...
Eu não posso insistir para ela levar o casaco se sei que depois vai ser vítima de bullying.
Ser mãe é cada vez mais complicado.