27 abril 2015

Como é que se faz para emigrar?

Conversava com uma amiga e contava-lhe que tinha recebido há pouco tempo uma carta registada. Não conseguia perceber quem era o remetente, por isso quando fui levantá-la aos correios ia com receio de que fosse algo para pagar. Revelou-se ser apenas a nova carta de condução.
Ela confidenciou: "Aconteceu-me exactamente a mesma coisa. Vi a carta, não percebi o que era e fui aos correios a pensar que era mais um problema para resolver.Também já tenho a carta de condução nova"

Que geração é esta que mal vê uma carta registada pensa que é algo para pagar nas Finanças, um problema com o tribunal, com a segurança social? 

O Estado que temos agora, nesta fingida democracia, é um Estado opressor e que exerce o seu poder através da detecção de "fraudes" criadas por ele mesmo. A questão de as leis mudarem constantemente e de o cidadão ser obrigado a conhecê-las é uma mais valia para um Estado que a toda a hora cria pequenas brechas por onde pode ir sugar, espezinhar, atemorizar os cidadãos. O Estado não tem deveres nenhuns hoje em dia, mas o cidadão tem todos e mais alguns. E sempre relacionados com pagamentos.

Anda agora uma fase na SS de pedir a devolução de baixas de há 7 anos atrás. Tenho dois amigos nessa situação. Foi-lhes dada baixa com base nos documentos apresentados na altura, mas passado tantos anos a SS acha que afinal não foi merecida e pede o dinheiro de volta. O facto de a própria instituição admitir que cometeu um erro na atribuição dessa baixa não a torna responsável. O contribuinte (porque na realidade é a única coisa que hoje em dia Portugal tem - cidadãos, utentes, beneficiários, eleitores, etc.. já não há. Só os contribuintes.) é que é responsável por pagar um erro da própria instituição. A mim também já me foi pedido de volta as bonificações da SS. Algo que com base em declarações médicas eles resolveram atribuir, mas que, quando decidiram que afinal não era atribuível, foi a mim que pediram o dinheiro de volta: não ao médico por não acreditarem na decisão dele, não aos funcionários da própria SS que tomaram uma decisão errada, mas a mim, que entreguei documentos bem preenchidos e com informações verdadeiras.

As pessoas vivem com medo de as Finanças as apanharem, mas não por terem feito algo de mal, não apenas as apanharem numa rede qualquer criada por um estado que além de não fomentar a natalidade, fomenta o suicídio.

Eu tenho medo. Medo de me enganar num formulário, esquecer mais um preenchimento de um documento, não saber que falta um modelo preenchido em duplicado, ignorar que um imposto de selo, uma taxa, uma pseudo-taxa, não me registar em mais um site onde tenho de verificar mensalmente facturas e recibos e facturas e recibos como se a minha vida não fosse outra coisa que não trabalhar para contribuir e verificar que a contribuição se fica pelo trabalho feito e não pelo imposto e juras de mora pelo trabalho feito mas indevidamente identificado, criteriado, analisado, documentado. 

AAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Quero sair daqui...

23 abril 2015

O casaco

A Mariana tem um casaco de que gosta. Ofereceu-lhe o avô e é branco. Foi oferta de Natal e no início do ano muito andou com ele vestido e sempre muito orgulhosa. Só o tirava quando eu dizia que era preciso lavar, porque um casaco branco suja-se muito.
Depois parou de usar. Quando lhe perguntava porque não o vestia respondia que era para não se sujar.

Há dias foi convidada para uma festa de aniversário num campo de futebol. Ficou felicíssima por ser das poucas raparigas convidadas e por o ter sido porque as suas qualidades de jogadora tinham suscitado admiração por parte do aniversariante. 
No meio de toda essa alegria  diz-me "E posso vestir o casaco que o avô me deu porque ele é desse clube!" 

Pára tudo!

Então ela não vestia o casaco porquê?! Afinal a questão da preservação do casaco não tinha nada a ver com o assunto.

Pedi-lhe que me explicasse e respondeu-me que quando levava o seu casaco preferido para a escola os amigos e colegas gozavam com ela, chamavam-lhe nomes, gritavam-lhe "BUU!!!" quando ela passava num corredor. Entre todos esses a melhor amiga e os pais dela, de quem a Mariana gosta muito. 

Quando a Mariana começou a dizer que gostava de mais de um clube de futebol não liguei, mas depois disto fico a pensar que os clubismos de futebol são uma espécie de xenofobismo muito enraizada em Portugal, dos quais os próprios xenófobos nem se dão conta. Pessoas que se consideram tolerantes e que são defensoras da liberdade de escolha são capazes de insultar uma criança até ela se sentir desprezada e maltratada apenas porque não veste uma camisola da cor do seu clube. Mais, a Mariana passou a gostar (ou a dizer que gostava) de outro clube para agradar a outras pessoas, que ela preza, mas que só a tratam bem enquanto disser vivas ao mesmo clube. Quando não, injuriam-na.

Todos temos o direito à diferença, a gostar do que nos dá prazer, por isso inculcar desde crianças o medo de ser desprezado por ter gostos próprios é acabar com a identidade, espontaneidade, honestidade e liberdade de uma criança. 

A Mariana tem uma óptima relação com o futebol: gosta de jogar à bola e joga bem. Os clubes que se lixem. 

01 abril 2015

tem dias...

Às vezes penso que tenho de me atirar rapidamente de uma ponte abaixo, que isto de estar viva é só perder tempo.