30 dezembro 2015

O cãozinho simpático

"Mãe, aquele cãozinho é dos simpáticos. É daqueles que, quando fazem cocó, atiram a relva ou terra para cima para as pessoas não pisarem."

Acreditar que os cães se preocupam com a possibilidade de as pessoas pisarem os seus dejectos é uma muito maior forma de inocência. É deixá-los acreditar.

(Eu quando era nova, anos 80, achava que os enchumaços nos ombros eram para as senhoras não se magoarem com a alça da mala no ombro. O que não percebia era porque não usam só um, já que punham sempre a mala no mesmo ombro.)

14 dezembro 2015

um peão a menos no passeio

Às vezes lê-se nas bicicletas: um automóvel a menos na estrada. Como se as bicicletas se substituíssem aos automóveis, como se aqueles ciclistas fossem antigos automobilistas...
Amigos, sou completamente a favor das bicicletas, mas a verdade é que na maior parte dos casos não há uma opção entre uma coisa e outra. 
Eu acho (não sei, ninguém me disse e também não perguntei) que a maioria dos ciclistas são ex-utilizadores de transportes públicos ou peões.
Pessoalmente, não ando mais de bicicleta porque o percurso casa - escola - trabalho - escola - ginástica - casa, que de carro totaliza uns 50 minutos, talvez chegue à uma hora, de bicicleta transformar-se-iam em 1h50, talvez duas, talvez mais. E por vezes há a guitarra, outros dias outras coisas. Além de que andar com uma criança na estrada é perigoso, pelo que tenho de ir pelo passeio. Indo pelo passeio, é necessário escolher aqueles que permitem pedalar com desafogo nosso e dos peões, o que resulta em caminhos mais longos. Podemos juntar a estes inconvenientes a chuva e o frio, muito irritantes quando põem crianças doentes.
Assim, os dias em que posso sair de casa a pé, são os dias em que posso sair de bicicleta. Daí o título do post.

MAS...

O título é ambivalente, pois também serve à minha queixa sobre as ciclovias no passeio: colocar ciclovias no passeio é uma declaração óbvia de que as bicicletas substituem os peões. E tanto é assim que aqueles com quem os ciclistas mais embirram são os peões nas ciclovias, e os peões com as ciclovias no passeio.
É preciso conduzir as embirrações para lugar certo e, ciclistas e peões juntos, temos de explicar e exigir que se tratem as bicicletas como meio de transporte, exigir o espaço delas na estrada, e rebocar ou atomizar todos os carros em segunda fila para sermos todos felizes!

(mais um queixume guardado que veio ver a luz do dia. vão sendo libertados aos poucos)

11 dezembro 2015

a t-shirt unissexo

A t-shirt unissexo é uma t-shirt desenhada para homens, mas que as mulheres também conseguem vestir, apesar de, na maior parte das vezes, lhes ficar enorme e não tão bem como uma t-shirt feminina.
A t-shirt unissexo é uma forma de se poupar dinheiro fazendo apenas só um tipo de roupa dizendo que fica bem aos dois.
Eu tenho gavetas cheias de t-shirt unissexo que esperam os dias de serem transformadas em panos de pó. São t-shirts que paguei quando fui a corridas e outros eventos, mas que, ao contrário dos homens, só as consigo tornar verdadeiramente úteis como pijama ou pano de limpeza.
Quando se manda fazer uma t-shirt num clube, faz-se a t-shirt masculina. Se eu reclamo e peço uma t-shirt feminina respondem que a t-shirt é unissexo. A isto eu argumento:"Então se é unissexo mandem fazer com corte feminino que eu já estou farta de dar dinheiro por panos de pó.". A isto respondem: "mas isso são t-shirts femininas." [segue em diálogo]
Ela:
- Mas se as t-shirts são iguais para os dois sexos porque não este modelo?
Ele.
- Porque esse é de mulher.
Ela:
- Então escolhe um tamanho XL.
Ele
- Mas ia ficar ridículo.
Ela:
-  Mas eu sempre fiquei mal com t-shirts de homem.
Ele:
- Mas essas não são de homem, são unissexo.
Ela:
- Dizes que são unissexo porque te ficam bem a ti. Se a mim ficam mal, não são unissexo.
Ele (quando não tem mais argumentos nem paciência):
- Não sabia que eras feminista.

Nesta altura a minha irritação já vai num grande ponto de ebulição. 
O que me incomoda realmente é que nem se perceba que o mundo está desenhado para homens e se parta do princípio que esse é o desenho do mundo.
Digam-me:
- qual a lógica de as mulheres não chegarem com os pés bem ao chão quando se sentam nalgumas cadeiras, por exemplo nas paragens de autocarro?
- porque é que para chegarmos com os pés ao travão e acelerador como deve ser temos de ficar com o volante debaixo da cara?
- porque é que só conseguimos ver sem reflexo nas caixas multibanco se nos pusermos em bicos de pés?
- porque é que nos telefones públicos antigos tínhamos dificuldade em ver se a moeda já tinha caído ou não?

Não é por sermos pequenas. É porque o mundo construído (não o natural) está desenhado para homens.
Num país onde a percentagem de mulheres é muito maior é ridículo e chauvinista que a maior parte da população se tenha de conformar com ergonomias erradas.
A bem dizer eu até acho que a ergonomia mundial é para homens do norte da Europa. 

(Se houver quem não concorde que isto é assim, repare nos casos em que há uma caixa multibanco ou telefones públicos para deficientes de cadeiras de rodas, se não é muito mais confortável usar desses aparelhos, que estão a uma boa altura, que os outros...)

02 dezembro 2015

o saber ocupa lugar

Depois de um período intensíssimo de estudo em que tentei praticar ao máximo o ditado popular de que "o saber não ocupa lugar" durante o qual me esforçava a todas as horas e até ao máximo da minha atenção por "enfiar" matéria nova na cabeça, agora chego à noite e não sei o que hei-de fazer. Sinto falta de aprender coisas novas. Os romances já não me entusiasmam. Quero saber coisas sobre a Europa, a História Mundial, a Cooperação Internacional, quero ler regulamentos e decretos, fazer contas, saber como funciona o país, política! ... sei lá...
Continuo a ter a tese para fazer, mas estou ávida de matéria nova!

Das duas uma: ou frequento novas secções das bibliotecas ou isto passa. 

(está sempre a expirar o limite de visualizações do Público...)

05 novembro 2015

mnemónicas amoroso-administrativas

Palavras dos últimos dias: desconcentração, desburocratização, desmaterialização, endoprocedimental, regime substantivo, cooperação, alínea x, artigo número, regulamento, procedimento, desvio-padrão, histograma... Estudo para poder estudar para poder ter um emprego. Tento dar imagens às palavras para conseguir perceber o que estudo. Neste sentido, consegui transformar os procedimentos para celebração de contratos mistos numa história de conquista amorosa de pretendentes a uma mesma pessoa a tentarem estabelecer uma relação para a vida, a celebrar o contrato, como se diz nos manuais: primeiro há um concurso público, no qual todos podem concorrer à celebração do contrato; desse concurso resultam alguns possíveis adjudicatários (os namorados que se tem); mas depois é preciso escolher qual dentre esses é mesmo para celebrar contrato; então passa-se ao procedimento de negociação. E celebram-se as núpcias! Na minha menmónica a história é mais interessante, mas deixo apenas o rascunho. E volto ao blá blá blá...

15 outubro 2015

Ela e eu

Como eu fui...
Pensei muito, adiei ano após anos, depois treinei muito, impus-me tempos e distâncias, ainda hesitei e depois inscrevi-me na minha primeira mini maratona, de pouco mais de 7km. No dia anterior fiquei nervosa, não dormi bem, comi pouco para não ter fome e depois tive fome. Bebi pouca água. No final da prova arrastei-me, mas depois consegui.

Como ela é...
Quer correr muito tempo. Pode ser 5km. Pode ser com os ténis velhos. Mas no dia anterior quer correr pela cidade, pendurar-se em todas as árvores, sem receio de se cansar para o dia seguinte. No dia da prova acorda normalmente e vai aos pinotes até à partida. Quando a mãe lhe diz que se enganaram no percurso e afinal em vez dos 5km, têm de correr 10km, está bem. Vai sempre ao mesmo ritmo, costas direitas, a ouvir música nos fones, a reparar na canoa cor-de-laranja, no trevo triangular. No fim da corrida não está cansada. E no regresso a casa vai novamente aos pinotes, subindo a qualquer poste que apareça no caminho.

Como é que sei que ela é humana?
Também lhe doem as pernas.

30 setembro 2015

I thought Portugal was a democracy

Uma americana diz-me, depois de ver a propaganda do PC nas ruas de Lisboa:
"How strange. I thought Portugal was a democracy."

Eu expliquei que, exactamente por sermos uma democracia, havia vários partidos a concorrer às eleições. Ela continuou a achar que não fazia sentido.
Contei-lhe que antes do 25 de Abril o Partido Comunista era proibido e que nessa altura vivíamos numa ditadura.
Continua a não fazer sentido para ela que numa democracia se permita que haja o Partido Comunista.

É de nos espantarmos com a potência da lavagem cerebral que fizeram nos States! Chiça!...

13 setembro 2015

Para quando estiver indecisa entre uma estante billy do ikea e uma estante bem bonita e mais cara

"O problema da beleza põe-se quase sempre em termos de valor/utilidade e surge de forma a sacrificar um interesse imediato, uma necessidade, para fazer, em seu lugar, algo que não tem qualquer utilidade imediata, mas que nos projecta no futuro, que nos representa não com somos, mas como queremos ser, não que responde às exigências do presente, mas às pessoas vindouras."
"Em conclusão, devíamos escolher o presente ou o futuro? Representar aquilo que [somos] no momento ou apontar para a nossa imagem ideal?"
(Francesco Alberoni*)

Ou seja, quero representar-me por uma estante billy de pouca duração que se desmantela em pouco tempo, ou por uma que durará gerações, bonita e que me dá orgulho?

(Dependerá da carteira...)

* Não estou a gostar muito, mas...

05 agosto 2015

dúvidas e conclusões

Às vezes pergunto-me se não será tudo de propósito. É possível que seja um acaso que cada vez que há um novo espaço público de lazer, pouco tempo depois um mega qualquer coisa edifica nesse mesmo espaço parte do seu mega projecto?
Lembro-me dois casos. Um o Corte Inglés. Durante anos e anos o grande buraco com tapume esteve ali no alto do parque sem ai nem ui. Nada acontecia. Um dia começaram a arranjar o futuro jardim Amália. Tudo ficou muito bonito e com um parque infantil espectacular na vertente ali ao lado, cheio de bons brinquedos, muitas estruturas, grande e com pouca gente. O que se pode querer mais? Bom, pode-se querer que dure algum tempo. Porque pouco depois vieram as obras do centro comercial, aquela zona ficou dentro do estaleiro e quando os tapumes saíram não havia parque infantil para ninguém.
Agora, na ciclovia que vai do Palácio da Justiça a Monsanto também estava tudo um espectáculo. Nem nunca pensei que se pudesse ir tão rápido de um lado para o outro. Era um belo passeio e tinha-se uma panorâmica da cidade, com o Aqueduto das Águas Livres ao fundo, que dava a ver uma outra perspectiva da cidade. Pois ora bem, nem é tarde nem é cedo para meter aqui uns tapumes, umas retroescavadoras, acabar com o belo passeio e fazer mais uma mega coisa dedicada ao dinheiro.

Lastimei a CML, que cada vez que faz um investimento, vai esse investimento ao ar... Mas? Alto lá! Há projectos, há pedidos de licenciamento, há um inúmero correr de papel agrafado pelas mesas da CML antes de um projecto ser aprovado. E, nesse caso, como poderia haver tanto azar com os timings?!
AH!!!
Então o que concluí é: a CML terá maiores "danos" se o espaço usado para edificar tiver um uso público e nesse caso deve cobrar um qualquer imposto ou indemnização que compensa o pouquinho de alcatrão que leva a ciclovia ou as estruturas de um parque infantil que podem ser usadas noutro lado.Ou seja, assim que há um projecto que englobe uso do espaço público, coloca nesse espaço qualquer coisa para o povo, para depois poder ser indemnizada em grande.
É isto? Ou só mesmo má gestão e venda do espaço público a quem oferece mais?

03 agosto 2015

Vrrum-éummmm!

40 km de bicla para baixo, mais 40 km para cima. Companhia: a superfilha de todas as horas.
Tudo óptimo, com gargalhadas, esforços superados, fotografias e recompensas.
Agora pergunta-me se um dia podemos fazer 50 km. Claro que podemos! Um dia podemos dar a volta a Portugal em bicicleta :) E quem diz Portugal diz o Mundo.




08 julho 2015

quinta das conchas


A Quinta das Conchas parece saída de outro sítio qualquer que não o meio da cidade.
Esta quantidade de verde é surpreendente.



Os caminhos de terra: bons para passeios. E é possível perdermo-nos e tudo se não formos lá frequentemente.



07 julho 2015

blá, blá, blá

Porque lhe chamaram feia, acha que as pessoas são cruéis. Isto vem de uma rapariga, que tem um site de beleza e que resolveu colocar fotos suas sem maquilhagem, com todas as borbulhas bem iluminadas e um olhar infeliz. Coloca as fotos na net e surgem comentários cruéis: és feia, eu teria vergonha de mostrar a cara assim, etc. Depois surge com a maquilhagem toda composta, mostrando uma pele perfeita e um sorriso radiante. Os comentários desta feita são: és linda, gostava de ser como tu. Depois retira a maquilhagem e os comentários são: és falsa, sem maquilhagem és feia.
Moral que se quer mostrar com esta história: que as pessoas tratam mal as pessoas feias, que quando uma pessoa é bonita é elogiada, e, mais importante, que somos é bonitos por dentro.
Pois... o que eu acho é que se se põe uma foto na net, para ser visualizada publicamente e se dá a possibilidade de se comentar essa foto, é porque se quer ter comentários. Se foto é um retrato, pode ser por ser artisticamente bonita que queremos elogio, ou por a pessoa retratada ser bonita, ou o penteado, ou maquilhagem, ou as pestanas, etc. Em geral gosta-se do bonito, apesar de haver pessoas atraídas por um certo tipo de feio. Se a foto não é bonita (seja porque razão for - pelo conteúdo ou pela forma como foi tirada) é contraproducente esperar um elogio. Principalmente se a foto é pública.
Eu posso colocar uma foto minha na praia, de bikini, no meu perfil de FB, mas a única coisa que posso esperar de comentários é: bela praia, belas férias, foto gira, etc. Não posso esperar que me escrevam: que elegante. As pessoas comentam o que vêem. E estas pessoas, neste exemplo específico, são os meus amigos, por isso não serão cruéis comigo.
Se eu resolver mostrar uma foto das minhas borbulhas ou das minhas micoses publicamente não posso esperar receber elogios à minha pessoa ou, pelo menos, à beleza da minha pessoa. Posso ser elogiada por a imagem ser bonita ou ter coragem de mostrar as micoses. Mas se ninguém achar esses pontos positivos e eu quiser comentários de um monte de desconhecidos, andar posteriormente a chorar pelos cantos porque foram desagradáveis, é uma estupidez.
Lembro-me de haver um site público com imagens de escalada. Um dia alguém resolveu colocar a foto de uma amiga que tinha ido experimentar. A rapariga tinha as pernas cheias de pelo grosso. Durante uns tempos os comentários tinham só a ver com escalada, mas depois surgiram uns a sugerir a depilação. Neste caso sim, há alguma crueldade, mas é diferente: ela não quis expor os pelos. Se o tivesse decidido fazer - publicar uma foto dos seus pelos - então claro que os comentários recairiam sobre isso.
Toda esta conversa porquê? Porque às vezes me aborrece um bocado esta coisa do bullying da internet. Se as pessoas se expõem tanto, com algumas consequências há que arcar.
(e agora vamos lá ver o que me acontece, a mim que me exponho um pouco)

15 junho 2015

Lisboa e o turismo


Num volta de bicicleta pela minha cidade ao domingo de manhã deparo-me com toda uma nova parafernália de meios de locomoção poluidores e barulhentos adoptados por essa espécie migratória que agora chega a Portugal em charters e mais charters: os turistas!
Temos portanto, os tuc-tucs: uma espécie de carrinhos das castanhas que andam lentamente nas subidas, fazem imenso barulho e empatam o trânsito nas zonas históricas da cidade; as vespas, conduzidas em bandos de três ou seis, também pelas zonas históricas, também barulhentas e poluentes; aquela outra coisa onde se anda em pé, silenciosa, mas que só anda em plano; uma espécie de carro-bar-bicicleta onde se bebe enquanto se pedala, frequentada por bêbados britânicos em geral, logo a partir das 10h da manhã que atiram cervejas uns para os outros e tentam acertar com tremoços nas bocarras dos colegas; jipes descapotáveis com meia dúzia de pessoas sentadas atrás que param cada 10 metros para tirar uma fotografia; e ainda uma caleche e seu cavalinho na linha do eléctrico Belém-Cais do Sodré. E claro... as bicicletas!!!
Acho que a cidade não tem capacidade regenerativa para tanta poluição e barulheira. Daqui a pouco, além de impostos sobre os voos low-cost ainda teremos de pagar à Amazónia pela produção de oxigénio...
Torre de Belém: onde o Tejo acaba e os japoneses começam.

28 maio 2015

cor


fresco



19 maio 2015

roca - adraga


Tempo de qualidade com a família.

27 abril 2015

Como é que se faz para emigrar?

Conversava com uma amiga e contava-lhe que tinha recebido há pouco tempo uma carta registada. Não conseguia perceber quem era o remetente, por isso quando fui levantá-la aos correios ia com receio de que fosse algo para pagar. Revelou-se ser apenas a nova carta de condução.
Ela confidenciou: "Aconteceu-me exactamente a mesma coisa. Vi a carta, não percebi o que era e fui aos correios a pensar que era mais um problema para resolver.Também já tenho a carta de condução nova"

Que geração é esta que mal vê uma carta registada pensa que é algo para pagar nas Finanças, um problema com o tribunal, com a segurança social? 

O Estado que temos agora, nesta fingida democracia, é um Estado opressor e que exerce o seu poder através da detecção de "fraudes" criadas por ele mesmo. A questão de as leis mudarem constantemente e de o cidadão ser obrigado a conhecê-las é uma mais valia para um Estado que a toda a hora cria pequenas brechas por onde pode ir sugar, espezinhar, atemorizar os cidadãos. O Estado não tem deveres nenhuns hoje em dia, mas o cidadão tem todos e mais alguns. E sempre relacionados com pagamentos.

Anda agora uma fase na SS de pedir a devolução de baixas de há 7 anos atrás. Tenho dois amigos nessa situação. Foi-lhes dada baixa com base nos documentos apresentados na altura, mas passado tantos anos a SS acha que afinal não foi merecida e pede o dinheiro de volta. O facto de a própria instituição admitir que cometeu um erro na atribuição dessa baixa não a torna responsável. O contribuinte (porque na realidade é a única coisa que hoje em dia Portugal tem - cidadãos, utentes, beneficiários, eleitores, etc.. já não há. Só os contribuintes.) é que é responsável por pagar um erro da própria instituição. A mim também já me foi pedido de volta as bonificações da SS. Algo que com base em declarações médicas eles resolveram atribuir, mas que, quando decidiram que afinal não era atribuível, foi a mim que pediram o dinheiro de volta: não ao médico por não acreditarem na decisão dele, não aos funcionários da própria SS que tomaram uma decisão errada, mas a mim, que entreguei documentos bem preenchidos e com informações verdadeiras.

As pessoas vivem com medo de as Finanças as apanharem, mas não por terem feito algo de mal, não apenas as apanharem numa rede qualquer criada por um estado que além de não fomentar a natalidade, fomenta o suicídio.

Eu tenho medo. Medo de me enganar num formulário, esquecer mais um preenchimento de um documento, não saber que falta um modelo preenchido em duplicado, ignorar que um imposto de selo, uma taxa, uma pseudo-taxa, não me registar em mais um site onde tenho de verificar mensalmente facturas e recibos e facturas e recibos como se a minha vida não fosse outra coisa que não trabalhar para contribuir e verificar que a contribuição se fica pelo trabalho feito e não pelo imposto e juras de mora pelo trabalho feito mas indevidamente identificado, criteriado, analisado, documentado. 

AAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Quero sair daqui...

23 abril 2015

O casaco

A Mariana tem um casaco de que gosta. Ofereceu-lhe o avô e é branco. Foi oferta de Natal e no início do ano muito andou com ele vestido e sempre muito orgulhosa. Só o tirava quando eu dizia que era preciso lavar, porque um casaco branco suja-se muito.
Depois parou de usar. Quando lhe perguntava porque não o vestia respondia que era para não se sujar.

Há dias foi convidada para uma festa de aniversário num campo de futebol. Ficou felicíssima por ser das poucas raparigas convidadas e por o ter sido porque as suas qualidades de jogadora tinham suscitado admiração por parte do aniversariante. 
No meio de toda essa alegria  diz-me "E posso vestir o casaco que o avô me deu porque ele é desse clube!" 

Pára tudo!

Então ela não vestia o casaco porquê?! Afinal a questão da preservação do casaco não tinha nada a ver com o assunto.

Pedi-lhe que me explicasse e respondeu-me que quando levava o seu casaco preferido para a escola os amigos e colegas gozavam com ela, chamavam-lhe nomes, gritavam-lhe "BUU!!!" quando ela passava num corredor. Entre todos esses a melhor amiga e os pais dela, de quem a Mariana gosta muito. 

Quando a Mariana começou a dizer que gostava de mais de um clube de futebol não liguei, mas depois disto fico a pensar que os clubismos de futebol são uma espécie de xenofobismo muito enraizada em Portugal, dos quais os próprios xenófobos nem se dão conta. Pessoas que se consideram tolerantes e que são defensoras da liberdade de escolha são capazes de insultar uma criança até ela se sentir desprezada e maltratada apenas porque não veste uma camisola da cor do seu clube. Mais, a Mariana passou a gostar (ou a dizer que gostava) de outro clube para agradar a outras pessoas, que ela preza, mas que só a tratam bem enquanto disser vivas ao mesmo clube. Quando não, injuriam-na.

Todos temos o direito à diferença, a gostar do que nos dá prazer, por isso inculcar desde crianças o medo de ser desprezado por ter gostos próprios é acabar com a identidade, espontaneidade, honestidade e liberdade de uma criança. 

A Mariana tem uma óptima relação com o futebol: gosta de jogar à bola e joga bem. Os clubes que se lixem. 

01 abril 2015

tem dias...

Às vezes penso que tenho de me atirar rapidamente de uma ponte abaixo, que isto de estar viva é só perder tempo.

27 março 2015

dois assuntos

Feita.
21km, muitos de cansaço, mas todos de corrida. Nem uma pausa! 2h21 de corrida a par e passo com a minha irmã. 
Vitória! Meia-maratona feita antes dos 40!


Depois a minha mãe contou-me que um alemão de 43 anos tinha morrido durante a prova, e lamentou: "Ainda era novo...", ao que eu rapidamente pensei em resposta "Novo, não! Lá porque era mais novo que tu não quer dizer que fosse novo." Mas ainda nem terminava o pensamento, já o meu cérebro começava a funcionar e murmurava-me "Era quase da minha idade..." 

Ainda não me interiorizei desta coisa dos 40. Devia conseguir. 
Para certas coisas começo a ser velha: ter mais filhos (a menopausa está aí a bater à porta, não tarda), começar coisas de novo, desportos..., mas na minha cabeça parece que ainda tenho tudo por fazer: ter uma vida estável e segura, dinheiro, felicidade, amor, a minha própria família, deixar uma marca no planeta, ser alguém...

Ainda no Recife, fui à  praia com uma eslovena de 25 anos. Sabia-me mais velha, mas sentia-me companheira. Um rapaz mete conversa com ela, mas ela não entendia nada. Ele olha para mim e eu oiço "É tua irmã?", ela pergunta-me "o quê" com os olhos. Respondo "nada". O rapaz repete e oiço "É tua mãe?".
...
Que choque! Que tristeza! 
Respondi à eslovena que não tinha entendido o que o gajo dizia, mas na realidade pensava que realmente tenho idade para ser "mãe". Já não sou tipa para ser alvo de engate na praia.
Já não sou alguém com o futuro pela frente. Daqui a nada a vida acaba e que fiz eu que queria ter feito?



17 março 2015

Conselho para o ano

Há um ano atrás dei conselhos a mim própria para a próxima meia-maratona. Esqueci-me de me aconselhar sobre estadias no estrangeiro até à véspera.
No calor do Recife não se consegue correr: ou começamos às 5h30 da manhã (e aí tenho de apanhar um autocarro até à beira-mar) ou às 17h30 da tarde, num parque perto de casa com uma pista de 1 km.
Seja a que horas for o suor escorre-me pelo corpo como uma torneira, dos braços vão gotas penduradas que caem com a passada, a t-shirt fica totalmente empapada, o ar que respiro parece não oxigenar e é uma sede imensa a toda a hora.
O que me vale é que passo os dias a andar de um lado para o outro - calcorreio a cidade sob este calor húmido de 36º constantes durante horas a fio, acho até que os dias todos. Demoro mais tempo a chegar às bibliotecas e outros possíveis locais de pesquisa e a caminhar de uns departamentos para outros do que sentada lá dentro a ler ou pesquisar.
Além disso, porque sim, deu-me para as diarreias, cansaço nas pernas e sonolência. Não estou a conseguir fazer a última corrida e com a proximidade da prova já nem posso puxar muito por mim.


Conselho para o próximo ano: fica em casa, Marta.

13 março 2015

De Recife

Após 4 meses e meio de pesquisas no Brasil finalmente encontrei alguma coisa nova, interessante e significativa para as novas informações que pretendo dar ao mundo sobre o meu investigado.
Acontece que este novo documento aponta para a Bahia, essa terra que pus de lado por aparecer apenas numa referência...
De Recife levo uma cidade suja, feia malcheirosa, com imensas possibilidade de ser uma cidade bonita.
Uma amiga brasileira insurge-se contra qualquer pequeno mal que eu aponte à cidade e culpa o Estado por não cuidar da cidade. Ora bem, há que dizer que, além de prédios sujos e cheiro fétido na rua, o que me incomoda é o lixo. O lixo que é deixado por qualquer pessoa que recorre às centenas de vendedores de rua que não tem grande preocupação com a limpeza do espaço que utilizam. O chão está cheio de copos de plástico, saquinhos de plásticos, tigelas de esferovite, latas de bebidas, palhinhas, talheres de plástico, guardanapos de papel, pacotinhos de ketchup e mais qualquer coisa que me devo ter esquecido de enumerar.
Por outro lado, disseram-me que o sistema de saúde daqui é impecável e com óptimas condições e médicos. Talvez o país tenha optado por investir na saúde, e não na limpeza e educação. Não é um mau investimento. Mas não posso achar esta uma cidade bonita.
Se se fizer uma visita de um dia apenas aos pontos turísticos, leva-se uma ideia agradável de uma cidade caricata, com vida (se o passeio for num dia de semana) e até bonita, mas quando uma pessoa precisa de deslocar-se a sítios não turísticos é impossível fugir ao choque. E embora passado 10 dias deixemos de exclamar "Que cheiro horrível!", a verdade é que o continuamos a sentir e ele existe.

Sobre este problema do lixo, poderia ainda falar sobre um tema que anda na minha cabeça e que é "os gatos são os novos ratos", mas fica para outro dia.

E sim, "tem carnaval!"!

06 março 2015

Fruta


Demorei algum tempo até comprar fruta. Só me cruzava com vendedores ambulantes quando ia a caminho de arquivos ou bibliotecas e não dava para levar fruta comigo. Ao fim do dia quando chegava a casa não encontrava nenhum supermercado, mercearia ou vendedor onde pudesse comprar.
Um dia até dei uma grande volta pelo meu bairro, já bastante cansada de um dia cheio de caminhadas pela cidade. O meu bairro tem escolas, oficinas, um cemitério, armazéns e treinos de escolas de condução. Nesse dia vislumbrei uma loja cheia de verduras com uma tabuleta FRUTARIA SANTA MARTA. Estava salva! Aproximei-me contente, até pela coincidência do nome, mas quando mais me aproximava mais me apercebia de que não havia fruta no meio daquela verdura toda, apenas arranjos de flores. Nem Santa Marta me ajudou: não era uma FRUTARIA mas sim uma FUNERÁRIA...
No dia seguinte comprei decidida a fruta num carro ambulante. Optei pelas cor-de-rosa abaixo (jambo), umas a que chamei laranja mas o vendedor corrigiu-me para .... (esqueci) e as familiares banana e manga.
O jambo tem o tamanho de uma "nêspera" espanhola*, a consistência de um pimento vermelho, a forma de um figo e o sabor de flores.
Pela amostra dos vendedores ambulantes ainda tenho muita fruta para experimentar!!!
* A "nêspera" espanhola é um vegetal sem sabor, com aparência de nêspera e aumentado em relação ao original (como é toda a "fruta" espanhola que chega a Portugal).


25 fevereiro 2015

mais uma ficha, mais uma volta

Começo a habituar-me: sair de casa, deixar a a filha entregue, preparar a viagem...
Muito menos angústia que na experiência anterior e tudo mais bem preparado e planeado para o tempo render bem.

Retomo o cuidado com a língua: camisola, rapariga, gozar requerem nano-segundos de reflexão antes de serem pronunciados (é preciso atentar no auditório).

O estar no meio de estranhos não me assusta tanto e sei que a possibilidade de fazer o que gosto (correr, ler, ir ao cinema, concertos e teatro) transforma qualquer estrangeiro num local onde me posso sentir bem.

Aguardo com vontade refrescar-me com uma Original ou água de coco.

Conclusão: devia ter feito Erasmus para sentir mais cedo que o Mundo é a minha casa.




05 fevereiro 2015

Passada do prazo

Falta um dia para ficar mais velha. 
Mais um ano que passou. 
Mais um ano que vai passar.
O prazo também já passou. Se não, vai passar.

Infelizmente, não posso dizer que estou feliz com esta constatação dos anos que passam por mim.


02 fevereiro 2015

conselho às orelhas moucas

São 11h da manhã de um dia de semana. O metro chega com três carruagens só. Em vez da possibilidade de lugares sentados, antevejo a necessidade de lutarmos para entrar. Entramos e vamos em pé, aconchegadas aos restantes passageiros até à nossa estação. Ao sair vejo que me enganei na saída, mas assim que ponho a cabeça à superfície, constato que não estou longe daquela queria. Além de que poderia sair ainda noutra intermédia. Já para não dizer que só tendo de atravessar a rua havia mais 4 saídas de metro, sem contar com as outras 4 mais abaixo na avenida.

O que estranho é: se acham que os utentes precisam de cerca de 15 entradas para o metro num quarteirão, como é que podem pensar que três carruagens chegam para esses mesmos utentes?! 

Conselho às orelhas moucas: ponham menos saídas metro (saídas a menos de 10 metros umas das outras são só buracos no chão que impedem a circulação dos peões no passeio) e invistam em mais carruagens.

23 janeiro 2015

um pouco de cultura

Fui ver o Play Loud na Comuna.
Adorei a rapariga mais nova - representa bem, canta lindamente. Cada vez que cantava dava vontade de aplaudir. Devia gravar um disco, ter uma banda, dar concerto!
Também gostei da Cucha Carvalheiro a cantar - muita agressividade, vestia mesmo a personagem da cantante de punk.E depois da "salsera".
O Carlos Paulo parece estar numa brincadeira com os amigos - ri-se e diverte-se durante o espectáculo todo, com o elenco e com o público. Puxa o cómico para o espectáculo (às vezes). 
O rapaz novo teve piada no seu monólogo sobre filmes. Esteve bem no resto, mas na cena com o Carlos parecia estar cada um no seu tipo de registo de representação - o rapaz a ser natural/realista, o Carlos Paulo colocando a voz, fazendo pausas, sublinhando a cada palavra "isto é teatro" com a entoação.
O guitarrista ao vivo dava vida à coisa e tornava tudo melhor.
Sai-se de lá bem disposto!
Mas como a personagem do rapaz novo dizia dos filmes que via "não percebi nada".
(ah, e dispensava o filmezinho porno)

Entretanto estou a poucas páginas de terminar um livro chato: No céu não há limões
Sim, claro, poderia desistir. Porquê continuar a ler se é chato?
É que na verdade começo a ter curiosidade em saber se o Ogre morre no fim, se a Adolescente é boa ou má, quais são os planos deles contra o Padre, que raio faz a serpente na história...
Mais uma noite e terei as dúvidas solucionadas.

22 janeiro 2015

do bom para o mau

Uma pessoa vai com o carro à inspecção depois de lhe ter posto uns pneus novos, umas lâmpadas e escovas e fica feliz porque ele passa sem nenhuma observação: assim começa um dia bom!
Pouco depois uma amiga médica diz-nos para irmos às urgências para termos uma consulta de dermatologia com uma colega dela. Sendo a utilização das urgências para consultas algo que desaprovo, fui, mas envergonhada. No final apenas tive o raspanete por usar as urgências sem motivo e explicaram-me que "existe uma coisa chamada consulta de dermatologia".
Saí de lá mal comigo mesma.
Depois, por uma qualquer falta de lubrificante no carro, ao abrir o porta malas, bati com força com a cabeça na mala do carro. E foi a partir daqui que o dia começou a correr mal: quando dei por mim fundiu-se mais uma lâmpada do carro, bati mais duas vezes com a testa na porta do porta-malas (à terceira fiquei em fúria!) e quando chego a casa oiço notícias de pessoas que ficam 9 horas à espera nas urgências, para me sentir ainda mais culpada e envergonhada por as ter usado.
E, por tão pouco, o dia acaba com uma sensação de frustração, de inutilidade e de vazio.

12 janeiro 2015

Balanço de 2015

Sabemos que as crianças têm uma noção do tempo diferente da nossa.
A Mariana perguntou-me há uns dias o que tinha sido para mim o melhor deste ano. Perguntei "Deste? Ou de 2014?". "Deste", respondeu. Ainda argumentei que não tinha passado tempo nenhum. Insistiu.
Então, o melhor de 2015 foi a passagem de ano.
Saímos do Metro às 23h57. Parecia que havia ameaça de bomba no metro. Tudo corria como doidos para sair dali. Nós corremos também. Chegadas lá acima, o fogo de artifício já estava a dar. Corremos  de mão dada pela Rua da Prata lado a lado, debaixo das iluminações da rua e com o fogo de artifício ao fundo. Quando olhava para o lado via a cara dela a sorrir.



No primeiro dia do ano, descobrimos, com os primos, um tubo gigante que fez a maravilha de miúdos e graúdos: festarola de percussão urbana. Pareciam os Stomp!



10 janeiro 2015

Balanço de 2014


Foi mais um ano banal, com algumas coisas boas.
1) Participação na Meia Maratona pela primeira vez - a prestação foi má, mas pelo menos não desisti de fazer a corrida e, tendo em conta os tempos passados, será certo que na próxima Meia farei melhor.
2) Atribuição da bolsa para fazer pesquisa no Rio de Janeiro - ter ganho a bolsa tendo em conta que era um concurso a nível internacional e para todas as áreas foi muito bom. Dá-me mais confiança a nível profissional/académico e atenua o receio do futuro.
3) Passeios com a Mariana - à Serra da Estrela, a Córdoba e Brasil.

O ano passado não fiz decisões de Ano Novo, a única coisa que constato ter decidido era publicar mais posts no blogue que no ano anterior - Missão cumprida! Tinha os mesmos desejos desde 2010, que não se cumpriram.

Este ano nem decisões nem desejos de Ano Novo...