10 novembro 2014

saudades

Sempre vivemos as duas sozinhas. Em certos momentos, quando ela era ainda um bebé, absolutamente frágil, às vezes dava por mim a pensar no que lhe aconteceria se eu tivesse algum acidente, se eu morresse de repente. Será que o choro dela chamaria os vizinhos? Será que alguém iria sentir a minha ausência a tempo?
Via-a a frágil e indefesa e desejava que crescesse rápido e passasse a uma outra fase: mais robusta e independente.

Quando tinha cerca de 6 anos teve uma virose (entre muitas outras viroses que teve ao longo da vida). Ficámos em casa, eu à cabeceira dela, com uma tigela onde ela podia vomitar, um copo com água, lenços de papel para que pudesse limpar a boca depois. 
Dias mais tarde a virose virou-se para mim. Estávamos a ir para casa e tivemos de sair do metro para eu vomitar num restaurante. Quando chegámos a casa expliquei-lhe que estava muito mal, que me ia deitar um pouco e que depois logo fazia o jantar. 
Fui para cama, adormeci por um pouco e quando acordei tinha na minha banca de cabeceira a tigela, o copo de água e os lenços de papel. Enterneceu-me. 
Levantei-me, ainda mal-disposta, para tratar do jantar, quando a vejo na sala, com um prato com um crepe com chocolate, um pacote de sumo e a ver televisão.  Completamente independente e feliz.
Fiquei tão contente e aliviada nesse dia. Não só por ela já poder tomar conta dela, mas também por poder tomar conta de mim.

(nestes três meses de distância, quando sonho com ela, são só coisas banais: como ela comer um crepe de chocolate na sala. É uma banalidade tão preenchida, tão benfazeja, tão boa...)

1 comentário:

gralha disse...

Nem posso imaginar a dimensão das tuas saudades.