28 novembro 2014

Vão ou talvez não

É um facto inquestionável: passados 4 meses de pesquisa não encontrei nada. Não encontrei o que queria, nem o que não queria.
Foram 4 meses de revirar folhas com mais de 300 anos em vão.
Vão ou talvez não - alguma coisa de útil sobrou para a história do teatro em Portugal, apresentei palestras, comunicações, escrevi artigos, assisti a colóquios...
Consegui, em Recife, um documento muito importante, que buscava há séculos (mas não o encontrei no Rio).
Enfim...

A angústia quer apoderar-se da minha pessoa, questiona-me intermitentemente "viste tudo? viste tudo?", obriga a dar de novo volta a catálogos, a pedir de no novo documentação, ler mais 20 livros e artigos a repetir a mesma coisa, ver catálogos manuais, e mais catálogos online, enviar emails para bibliotecas nas redondezas sempre com a mesma pergunta ("Já vi o vosso catálogo online. Será que têm um catálogo manual que tenha mais documentação para além da que está online?") para ter sempre a mesma resposta (instruções para pesquisar no catálogo online).

Faltam ainda alguns dias, ainda vou de novo a arquivos, dar mais voltas, não deixar nada em branco.

A angústia permanece: vi tudo? Vi mesmo tudo? Estive aqui 4 meses, saio de cá sem resultados... Será que o que procuro existe em algum documento que não me lembrei de pedir?!
Nunca vou saber...

Comecei hoje o meu luto. Larguei os catálogos, deitei fora todas as folhas escrevinhadas com bibliografias, referências, palavras a pesquisar, fundos a pesquisar. Lixo. Porque já está visto, já está terminado, fiz o que havia a fazer, perscrutei bem, olhei muito, estive atenta.

Se não há, não encontrei, é porque provavelmente não existe.

Não foi em vão - repete para ti mesma: não foi em vão.

27 novembro 2014

Corcovado

A trilha começa no Parque Lage. Há uma guarita onde deixamos o nome e número de contacto junto com uns guardas que afirma que não há assaltos na trilha há muito tempo.
Dizem que duração é de 1h40 a 2h30. Parte fácil, depois mais difícil, escalaminhada com ajuda de correntes, posso comprar o bilhete para o Cristo e fico com direito a descer na van.
Subo. Tudo muito fechado. Sempre a ouvir-se o barulho dos carros e das pessoas. Árvores, árvores, árvores. ... Ai! Um ruído estranho... Não é nada. Mais árvores. A primeira cachoeira. A segunda cachoeira (com pouca água, tem chovido pouco). A partir de agora é que é mais inclinado (nota-se). Suo como um porco. Cada vez que me cruzo com alguém ponho a t-shirt como deve ser. Um americano ultrapassa-me (se calhar ele é o que faz em 1h40 e eu em 2h30). A certa altura vislumbra-se um pouco de vista. fotografo com os olhos, uma vez que não levei máquina por causa dos assaltos. Subo mais. Cada vez mais suada e com manchas de suor que marcam partes do corpo. E de repente, estrada! Pergunto as horas a uns caminhantes da estrada: três menos vinte, responde um espanhol. Epá, pelas minhas contas até ali foi só 1h10! Que rápida! Subo o resto da estrada até ao Cristo. Pelo caminho vou vendo a vista e fotografando com os olhos. Reconheço várias partes da cidade. Fico orgulhosa.
Chegando lá acima as camionetas descarregam turistas. Os guias gritam "daqui a 45 minutos aqui! Têm 45 minutos para visitar o Corcovado!". Bebo uma cerveja e pergunto as horas (15h30, demorei hora e meia :) é bom!), quero saber onde se compram os ingressos e o preço. O senhor do café chama-me "Portuguesa! Pergunte aquela moço ali!". 11R$ dias úteis, 21 R$ fins-de-semana. Ok. Está tudo estudado. Voltarei com companhia. Talvez subamos a trilha, talvez apenas a desçamos. Acabo a cerveja e começo o caminho de volta.
Na estrada um casal brasileiro faz a subida íngreme de bicicleta. "Vamo! Vamo!" encoraja ele, "Pára de dizer vamo!" responde ela, ofegante.
No início da trilha sou ultrapassada de novo pelo americano. Como já somos conhecidos diz um "hello!" sorridente.
Estou feliz! O Rio é uma boa cidade.
[...]
No final um beija-flor verde esvoaça parado ao meu lado.

Bambina

A minha rua tem:

  • supermercado com superbocks, vinho português e pastéis de nata;
  • clube de escalada 
  • uma pessoa que todas as noites anda kms de bicicleta estática numa varanda num 11º andar
  • mercado de rua todas as 2ª feiras para me abastecer de toda a fruta estranha e comum, legumes, peixinho, tapioca, queijo de minas e requeijão, goiabada e misturas de doce de leite
  • bar de "sinuca" com concertos e djs na mais completa decoração e arquitectura underground
  • hostel com livros para a troca
  • café onde toda a gente se chama pelo primeiro nome, com mesa-concerto onde ensaia saxofone, violão, pandeireta, flauta transversal e ... (estive a ouvir a música, e este último músico estava de costas, não recordo)


Além disso é próxima da praça Nelson Mandela, onde há o meu açaí preferido, uma barraca de arranjo de bicicletas baratinha e rápida, um sapateiro, e tudo o resto numa colecção gigante de barracas verdes (parece a praça de Espanha, mas com serviços); é próxima também da Estação Botafogo, onde passam os melhores ciclos de cinema do Rio; do pequeno jardim da casa Rui Barbosa, onde há um certo fresquinho e sossego (muitas crianças a partir das 17h) e, caso me aleije, de uma UPA (unidade de Pronto Socorro) muito bem recomendada.

26 novembro 2014

preguiça e falta de vontade

A  falta de vontade que tenho de sair de casa para ver microfilmes é gigante. 
Mas lá irei para terminar as pesquisas infrutíferas que me trouxeram ao Rio de Janeiro.
Há dois documentos que deveria escrever antes de regressar a Portugal: um sobre os arquivos e bibliotecas do Rio, as dificuldades em aceder aos mesmos, e a consequente falta de pesquisa documental que se nota na bibliografia brasileira (pelo menos na área que me toca); um outro sobre conselhos à geração futura: pôr o ar condicionado menos frio, deixarem de culpar os portugueses por tudo o que é cronicamente mau no Brasil, exigir aos motoristas de ônibus que conduzam as pessoas a casa e não ao hospital, e mais uma série de coisas. A preguiça de escrever isso é quase tanta com a de sair de casa para ver microfilmes.
Felizmente não está um dia óptimo para praia, não tenho convites para escalar e o único programa a meio da tarde é no Centro.

20 novembro 2014

Salvam-se as árvores

Depois de mais umas experiências decepcionantes com os arquivos e bibliotecas cariocas, derrotada pelo desânimo e pela pesquisa infrutífera, maldizendo os brasileiros, a burocracia e o Rio, resolvi ir a pé para casa, revolvendo, reciclando e inovando discursos imaginários onde questionava os bibliotecários, arquivistas e técnicos, explicava a falta de pesquisa de fundamentos dos seus livros de história... enfim, maldizia tudo galgando os 5km que me afastavam de casa. 
A certa altura uma alça da sandália parte-se, fica lassa e ganho uma bolha no pé. O vento sopra e o pó das obras de todo o lado entra-me nos olhos. Tenho fome. Tudo é mau. Quero o meu país!...
Prossigo nos impropérios contra o Brasil, brasileiros e tudo o que eles inventaram e fazem.
E assim do nada, uma árvore florida à minha frente, interrompe-me a verborreia mental. "Ao menos as árvores são bonitas", constato.
Já nem tudo é mau..

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17 novembro 2014

cine


Tenho ido a tantos festivais de cinema que até estranho a falta de aplausos no final de um filme comercial.
Ciclo de curtas, filmes de montanha, filmes do Peru, do Paraguai, festival do Rio... vai tudo!
(normalmente escolho o G8 - é central)
 

16 novembro 2014

A verdade

A verdade é que apesar de sentir saudades da vida de mãe, a vida de solteira também me deixava saudosista de há uns oito anos para cá. São essas saudades que tenho andado a matar. Ainda não morreram por completo
Gosto de acordar à minha hora, conforme o que tenho ou não para fazer, gosto de ir a festivais de cinema, de teatro, ficar na rua a ouvir música, aceitar beber uma cerveja, ver exposições, ir correr, escalar, ao ginásio, bicicleta, ler, trabalhar, almoçar, etc... sempre que me apetece.
Não sofro por estar sem filha - aproveito. Por vezes gostava que aqui estivesse, quando faço ou vejo alguma coisa que penso que ela também gostava. Nem uma lágrima de saudades. Mas quando me perguntam por ela, conto e conto histórias e episódios do que fez, de como é, falo durante mais tempo, e atrás de uma lembrança vem sempre outra.
Não sofro porque sei exactamente em que dia a vou ver, até a que horas, onde. Talvez chore no reencontro, talvez sorria sem parar antes.. Quase de certeza, pouco depois já estarei a ralhar por qualquer coisa...

Entretanto aproveito. Faço uma lista do tudo o que tenho de fazer antes de passar a ser novamente mãe a tempo inteiro: 30 kms de bicicleta para ir a uma praia mais longe, caminhada até ao Corcovado, noitada em Santa Teresa...

(feito: acordar às 5 da manhã para escalar e chegar ao ponto de encontro às 6h00 da manhã, a tempo de ver o sol nascer)

15 novembro 2014

já faltou mais

O cheiro a bolo no forno por toda a casa. Ficar no sofá, enroladinha e quentinha, a sentir conforto de uma casa que preparámos para nós. Alguma música ou qualquer coisa na TV. Esperar para comer o bolo ainda morno. Ser interrompida por uma frase começada por "Mãe...".
O aroma aconchegante de bolos acabados de fazer...

10 novembro 2014

saudades

Sempre vivemos as duas sozinhas. Em certos momentos, quando ela era ainda um bebé, absolutamente frágil, às vezes dava por mim a pensar no que lhe aconteceria se eu tivesse algum acidente, se eu morresse de repente. Será que o choro dela chamaria os vizinhos? Será que alguém iria sentir a minha ausência a tempo?
Via-a a frágil e indefesa e desejava que crescesse rápido e passasse a uma outra fase: mais robusta e independente.

Quando tinha cerca de 6 anos teve uma virose (entre muitas outras viroses que teve ao longo da vida). Ficámos em casa, eu à cabeceira dela, com uma tigela onde ela podia vomitar, um copo com água, lenços de papel para que pudesse limpar a boca depois. 
Dias mais tarde a virose virou-se para mim. Estávamos a ir para casa e tivemos de sair do metro para eu vomitar num restaurante. Quando chegámos a casa expliquei-lhe que estava muito mal, que me ia deitar um pouco e que depois logo fazia o jantar. 
Fui para cama, adormeci por um pouco e quando acordei tinha na minha banca de cabeceira a tigela, o copo de água e os lenços de papel. Enterneceu-me. 
Levantei-me, ainda mal-disposta, para tratar do jantar, quando a vejo na sala, com um prato com um crepe com chocolate, um pacote de sumo e a ver televisão.  Completamente independente e feliz.
Fiquei tão contente e aliviada nesse dia. Não só por ela já poder tomar conta dela, mas também por poder tomar conta de mim.

(nestes três meses de distância, quando sonho com ela, são só coisas banais: como ela comer um crepe de chocolate na sala. É uma banalidade tão preenchida, tão benfazeja, tão boa...)

02 novembro 2014

Calor

O calor começou. E eu começo a perceber porque é que as mulheres andam de calções curtos e camisas sintéticas. Habituo-me ao ruído constante da ventoinha. Aprecio o chá mate com limão na praia. Bebo cervejas em esplanadas. Quase que corro em top no Aterro do Flamengo (ainda tenho pudor).

No meio disto tudo consulto com agrado as previsões meteorológicas para o próximo mês e meio - poucos dias acima dos 30º e alguns dias com chuvas. Mas eu sei que estão erradas, nos últimos dias a confrontação com a previsão e as temperaturas actuais deu para ver que vai ser quente, apesar da amenidade apresentada.
Tenho de trabalhar em frente ao computador. Preguiça de sair para um local mais fresco. Fico em casa até me fartar e aí, mesmo tendo trabalhado pouco, vou à praia dar um mergulho, ouvir as conversas (que são sempre em voz alta), adormecer um pouco, ficar menos branca.
Tenho o meu livro quase no fim. Daqui a pouco saberei o que acontece à personagem principal: aposto que fica no Rio e esquece a Margot*. Por causa deste romance quero ir beber uma cerveja ou outra coisa qualquer fresca ao Vidigal. Se calhar só vou ouvir o barulho das moto-táxis, mas quero ir. Quero ver o cenário ao vivo.
É bom que os livros nos levem a fazer coisas.
Mas a coisa a fazer agora é ler um bocado debaixo da brisa da ventoinha...


* Porque é que as mulheres amadas pelas personagens que são escritores homens inventados por autores homens portugueses são sempre espectaculares de beleza, de inteligência, com um toque de loucura e indolentes? Nestes romances em que o protagonista é um alter-ego do autor encontro-as sempre. No final o romance entre eles termina sempre com uma acção inexplicável (mas não espectacular dela). São estas as mulheres tipos que os autores gostam? Que gostariam de ter? Ou que TODOS os homens gostariam de ter? Irresponsáveis, inconsequentes, sexyse fogosas (claro!), cobiçadas por qualquer macho, mas possuídas apenas por eles (óbvio!!). É?!
Tenho de ver qual é o personagem típico masculino amante de personagens escritoras femininas alter-ego das autoras. Existe?