02 outubro 2014

A minha casa

Beber um leite com café e ter de lavar logo a chávena. Depois descubro que afinal quero uma torrada. Lavar logo o prato e faca. Quando faço as minhas tapiocas com queijo coalho e goiabada tenho de a seguir limpar o fogão, a frigideira, a faca com que cortei o queijo e a goiabada e ajeitar de novo os naperons e enfeites em cima do fogão. Faço arroz a mais e deixo-o a arrefecer na panela antes de o pôr no frigorífico - se já esfriou e ainda não o tirei oiço logo a chamada de atenção "Martá, guardá o arroz na gêládeira!", e assim que o guardo tenho de lavar a panela e a colher que usei para pô-lo no turperware. Não interessa se estava ler um livro, escrever um artigo, ver um filme, ou mesmo coisa nenhuma: a cozinha tem de estar sempre como se ninguém passasse por lá. A cozinha é uma prioridade.
Estendo a roupa. Já está seca. Sou avisada de que posso tirá-la do estendal. Tem de haver espaço para as outras roupas.
Não posso andar pela casa de soutien, apesar do calor imenso. O esquentador demora 20 minutos até aquecer: se o ligo, não posso distrair-me a fazer outra coisa ou tenho o esquentador desligado e quando vou ao banho tenho de o ligar de novo e esperar novamente 20 minutos (mas desta vez cronometrando o tempo, para que ninguém o desligue de novo!). Para o banho levo o saco com o sabonete, champô e pedra pome, além da toalha. Quando saio levo tudo de volta, não me posso esquecer de desligar o esquentador, nem de uma peça de roupa suja esquecida.
O barulho da rua é imenso, com a janela fechada ou aberta (um pouco menos com a janela fechada, mas ainda assim parece que estou a dormir debaixo de um viaduto). O calor aperta, mas se abro a janela acordo com ruídos e mosquitos, se a fecho fico com calor, se ligo a ventoinha tenho um ruído constante no quarto.
O meu quarto é todo o meu espaço. A roupa suja, os ténis, as sandálias, o material de escalada, as mochilas suadas tudo deita um cheiro que fica encerrado no quarto, porque tenho de fechar quase sempre a porta: seja pela corrente de ar, seja pelos mosquitos, seja pelo cheiro a fritos (não há chaminé nem exaustor na cozinha), seja pela televisão aos berros. A janela fechada ou aberta é também um dilema, que já foi explicado.
A cadeira onde trabalho todo o dia é com assento de madeira. Às vezes ponho um travesseiro por baixo, mas depois cai ao chão, porque é grande demais, mas acabo por ficar sempre com o rabo desconfortável.
A corrente eléctrica é fraquíssima e a minha depiladora eléctrica não tem força para remover a pelagem que cresce sem piedade e sem pausas, neste país onde a saia e o biquini imperam.
Isto, aquilo, isto, aquilo, isto, aquilo. 
Estou farta de não estar na minha casa.

Quando chegar a casa não vou lavar loiça durante 4 dias de seguida!!! É uma promessa! uma promessa e uma prenda... 
Só não digo que vou andar nua pelas divisões todas, porque vai estar frio, mas vai ser tão bom estar frio que nem me importo de andar vestida.

1 comentário:

Paula disse...

Ui... Tanta exigência. Se calhar ainda vais a tempo de mudar de casa.