28 outubro 2014

Hoje não se trabalha

Hoje é Dia do Funcionário Público - eles hoje não trabalham. Há uns dias foi Dia do Comerciante - lojas fechadas. Há mais dias ainda Dia do Professor - os pais ficaram com as crianças em casa.
Perguntei se havia um dia para cada profissão: "Ô Marta, que ideia!..." 
Por ser dia do Funcionário Público, os meus locais de trabalho estão fechados (arquivos e bibliotecas), pelo que decidi tratar da correspondência com os amigos e família, da leitura, apanhar ar fresco e ventoso (é de aproveitar), almoçar acompanhada e rascunhar uma palestra futura na praia.
Tendo em conta a rapidez dos correios, aproveitei para desejar já um bom natal e feliz ano novo aos meus destinatários.


21 outubro 2014

Leitura

No Rio também se lê.
 Le fait du prince da Amélie Nothomb. Sobre um homem que quer ser outro. Uma das primeiras vezes que saí à rua para ler. Talvez no segundo dia. Ainda não sabia que nesta praia, Botafogo, não se toma banho porque água é poluída. Em frente, aproveito para namorar o Pão de Açúcar.



 O belo Servidão Humana do Somerset Maugham. Oferecido aos meus pais e trazido para o Rio. 500 páginas de boa leitura. Faz pensar sobre as decisões da vida. o que somos, o que queremos ser e o que queremos mesmo ser. Na praia do Leme.


Cidade solitária do Fernando Namora. Um dos primeiros livros comprados no sebo* - ou 10 ou 3 reáis - uma pechincha! Sempre confundi o Namora com o Amado, por causa destes dois apelidos dados ao amor. São contos a dar para o triste. A cerveja Skol não é grande coisa... Outra vez na praia do Leme.

 Agosto do Rubem Fonseca. Gosto muito do Rubem Fonseca e fiquei contente por este policial se passar durante os últimos dias do Getúlio Vargas. Foi enriquecedor para o meu conhecimento político do país. Também foi agradável reconhecer os nomes das ruas e saber em que espaços se passa a história. Paragem na minha primeira ida para o trabalho de bicicleta - antes de entrar no trânsito parei um bocadinho para ler, enquanto via ao longe uma aula de patins em linha.

 Vidas secas do Graciliano Ramos. Também do sebo com os de cima. Um belo clássico que me fez ir à wikipédia algumas vezes. Para quem não sabe, bolandeira é a máquina que separa o algodão.
Aqui estou a ler na Lagoa Rodrigo de Freitas. Sítio de que gostei muito e achei muito bem frequentado (apesar de ter sabido ontem que há uns dias assassinaram aí um rapaz para lhe roubar a bicicleta). Em frente, o Morro dos Dois Irmãos, que tinha subido há poucos dias.


O livro que ainda leio, O tronco do Ipê do José de Alencar. Um bocado chato. Mas agora acho que o Mário e a Adélia devem estar quase a entender-se. Pelo menos já não faltam muitas páginas.
Aqui estou no Parque Lage, esse belo local de frescura e piqueniques de crianças. Também tem grutas românticas e macacos que levam sacos do lixo para cima das árvores e vão atirando ao chão, e em cima de quem passa, o que não lhes interessa.


* Sebo é o nome que dão aos alfarrabistas/alfarrábios. Bah!....

14 outubro 2014

Itatiaia

Saí do Rio de Janeiro passados dois meses e fui apanhar frio para o Parque Nacional de Itatiaia, que fica na confluência dos Estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
Fui apanhar frio (4º à noite é muito frio, principalmente para quem só tem roupa de Verão) e fui escalar e fazer caminhadas e acampar. Tudo coisas de que gosto muito! E não ouvir nem autocarros nem aviões nem portas a fechar nem sinais sonoros de tipo nenhum.... Maravilhoso!!!
Éramos 4 e demo-nos bem. Rimos em conjunto - que é uma coisa muito boa - principalmente motivados por diferenças linguísticas entre o português de Portugal e o do Brasil.
Só faltou um vinho à noite para aquecer... Esqueci-me, mas não me esquecerei da próxima.
No regresso passámos numa loja característica onde dava vontade de levar tudo para casa: doce de leite com chocolate, geleia de mocotó, pé de moça, pé de moleque, picante molho atômico, picante morte súbita, leite de onça, cachaça, mel, geleia de pimenta, geleia de limão, queijo muçarela (é como escrevem aqui), queijo com especiarias, queijo coalho, etc... (mais umas trezentas variedades).



 Aqui podia-se tomar banho, mas ouvi dizer que era água mais gelada do estado do Rio de Janeiro.


Estas são as Agulhas Negras. Chegámos ao cume depois de uma bela "escalaminhada". 2791m de altitude!!! (daí as constantes dores de cabeça). A descida foi mais emocionante que a subida: rapéis, dúvidas, a noite, o escuro... Mas chegámos bem e a comida (atum com molho de tomate, tortelini de queijo, ovo cozido e queijo ralado, com suco de caju, e chocolatinhos para sobremesa e chá para empurrar) soube que nem ginjas! Bem melhor, até!

Este foi escalado no primeiro dia: Pedra do Altar. Lá em cima a rocha é toda ondulada, como a areia por vezes debaixo de água, cheia de covas. Muito bonito!


Cá estou eu no topo a mirar o horizonte!

Florzinha Amariis que cresce por todo o lado aos pares e que se destaca sempre pela vivacidade do tom vermelho no meio do cinzento das rochas e verde das doutras plantas.

Trilha fácil, mas muito bonita sobre um vale gigantesco de cada lado. Os urubus voavam por ali e faziam algumas razias (poucas, que eles não são animais muito dados).

02 outubro 2014

A minha casa

Beber um leite com café e ter de lavar logo a chávena. Depois descubro que afinal quero uma torrada. Lavar logo o prato e faca. Quando faço as minhas tapiocas com queijo coalho e goiabada tenho de a seguir limpar o fogão, a frigideira, a faca com que cortei o queijo e a goiabada e ajeitar de novo os naperons e enfeites em cima do fogão. Faço arroz a mais e deixo-o a arrefecer na panela antes de o pôr no frigorífico - se já esfriou e ainda não o tirei oiço logo a chamada de atenção "Martá, guardá o arroz na gêládeira!", e assim que o guardo tenho de lavar a panela e a colher que usei para pô-lo no turperware. Não interessa se estava ler um livro, escrever um artigo, ver um filme, ou mesmo coisa nenhuma: a cozinha tem de estar sempre como se ninguém passasse por lá. A cozinha é uma prioridade.
Estendo a roupa. Já está seca. Sou avisada de que posso tirá-la do estendal. Tem de haver espaço para as outras roupas.
Não posso andar pela casa de soutien, apesar do calor imenso. O esquentador demora 20 minutos até aquecer: se o ligo, não posso distrair-me a fazer outra coisa ou tenho o esquentador desligado e quando vou ao banho tenho de o ligar de novo e esperar novamente 20 minutos (mas desta vez cronometrando o tempo, para que ninguém o desligue de novo!). Para o banho levo o saco com o sabonete, champô e pedra pome, além da toalha. Quando saio levo tudo de volta, não me posso esquecer de desligar o esquentador, nem de uma peça de roupa suja esquecida.
O barulho da rua é imenso, com a janela fechada ou aberta (um pouco menos com a janela fechada, mas ainda assim parece que estou a dormir debaixo de um viaduto). O calor aperta, mas se abro a janela acordo com ruídos e mosquitos, se a fecho fico com calor, se ligo a ventoinha tenho um ruído constante no quarto.
O meu quarto é todo o meu espaço. A roupa suja, os ténis, as sandálias, o material de escalada, as mochilas suadas tudo deita um cheiro que fica encerrado no quarto, porque tenho de fechar quase sempre a porta: seja pela corrente de ar, seja pelos mosquitos, seja pelo cheiro a fritos (não há chaminé nem exaustor na cozinha), seja pela televisão aos berros. A janela fechada ou aberta é também um dilema, que já foi explicado.
A cadeira onde trabalho todo o dia é com assento de madeira. Às vezes ponho um travesseiro por baixo, mas depois cai ao chão, porque é grande demais, mas acabo por ficar sempre com o rabo desconfortável.
A corrente eléctrica é fraquíssima e a minha depiladora eléctrica não tem força para remover a pelagem que cresce sem piedade e sem pausas, neste país onde a saia e o biquini imperam.
Isto, aquilo, isto, aquilo, isto, aquilo. 
Estou farta de não estar na minha casa.

Quando chegar a casa não vou lavar loiça durante 4 dias de seguida!!! É uma promessa! uma promessa e uma prenda... 
Só não digo que vou andar nua pelas divisões todas, porque vai estar frio, mas vai ser tão bom estar frio que nem me importo de andar vestida.