29 setembro 2014

Morros


O meu objectivo é subir a todos os morros, mirantes e miradouros aqui do Rio em boa companhia. Ainda faltam uns quantos, mas isto vai lá.
Há uns dias fui ao Morro do Dois Irmãos, dos quais subimos ao Irmão Maior.


Começa-se na favela do Vidigal (que tem ambiente de aldeia e não de antro da droga), subindo de van por uma rua estreita onde só cabe um carro de cada vez, mas onde miraculosamente se cruzam carros, com vans, com camiões e um zum-zum ininterrupto de moto-táxis. Goste de passar pela favela e perceber que tem aquele ambiente de perigo e morte súbita como nos têm feito crer, apesar de ter sentido mais à-vontade por estar com um brasileiro. Sai-se da van no topo da favela, passa-se por detrás de um quintal de alguém e começa a trilha.
No topo aproveitei para escrever um postal ao meu sobrinho - um postal escolhido antes com a imagem do Morro dos Dois Irmãos, para poder pôr uma seta a dizer "Estou aqui!". 
No caminho vi um tucano, mas muito rapidamente. Também nos cruzámos algumas vezes com um senhor com dois cães que gabou o trilho da pedra da Gávea - há de ser o próximo!
(Ah, estava nublado nesse dia, daí a falta de cor nas imagens...)

26 setembro 2014

dia 44

Sou uma espécie de emigra. Uma "espécie" porque é durante um curto período, porque não vou mudar a minha vida, porque não escolhi outro país para viver, porque não escolhi um outro país para NÃO viver (dizem que esta última coisa é que é a mais complicada). 
Mas por outro lado não me sinto de férias, gosto dos dias em que reconheço uma rotina, quero abraçar os hábitos locais, integrar-me socialmente.

Vivo uma vida diferente, na qual não tenho obrigações com ninguém, em que posso sair todos os dias às noite, em que posso escalar e correr quando quiser, faço os meus horários simplesmente ao sabor dos meus desejos, sonos, vontades, planeio os meus dias de acordo apenas comigo: com as minhas necessidades, objectivos e vontades. As coisa que me preocupam no dia-a-dia são comezinhas, fúteis, quase adolescentes. Sabe bem. A sério que sabe. 

Contudo, cai de vez em quando uma saudade de ser mãe, de não pensar só em mim, de pensar e agir por duas e para duas. De não ser só eu. 

De não ser só eu e os outros que não importam muito, que são passageiros.

Quero manter os amigos permanentes, tenho saudades desses, que às vezes vemos duas vezes num ano, mas que estão sempre presentes. E por isso agarro-me às novas formas de comunicação que permitem estar com os amigos não estando junto deles, mas estando ainda assim com eles.
Por esta razão, o blogue tem ficado vazio. Escrevo agora para fora daqui. Para quem não sou anónima.

Vou ver se mudo. Também gosto de escrever para quem sou anónima.



Ontem fui dar uma volta de bicicleta pela Lagoa Rodrigo de Freitas. É um sítio bem bonito (nalguns locais), com pessoas engraçadas, imensas festas de aniversário, piqueniques, música, comida, bicicletas, corrida, gaivotas, etc.
Vi uns animais estranhíssimo*s que não fotografei e que olhei durante pouco tempo. Eram peludos, com olhos grandes, pelo claro e estavam uns três deitados em cima uns dos outros. O que me pareceram, à primeira vista, foi serem pescoços de camelos, ou melhor, pareciam camelos mas só tinham o pescoço e cabeça - tenho de lá voltar para vê-los e percebê-los melhor.

Ouvi uma músiquinha e li um pouco do meu livro antes do sol se pôr.

No passeio pela Lagoa Rodrigo de Freitas, passei por uma cancela onde se lia "Não passar quando vier o helicóptero". Achei estranho, mas como não havia nenhum continuei. Aí a vista era ampla e dava para tirar umas boas fotografias, mas a máquina punha-me a noite como se fosse dia e então demorei-me um pouco a fazer várias tentativas.
Até que oiço a hélice do helicóptero e resolvo sair dali. Mas era tarde demais!! A cancela estava fechada dos dois lados! Oh, julgava que ia voar para dentro da lagoa...

*NOTA: Fui informada que os "animais estranhíssimos" são capivaras. Cá vos deixo a informação.

22 setembro 2014

Primavera

Dizem que hoje é o último dia de Inverno e que amanhã começa a Primavera...
Fiz uma corridinha de despedida, enquanto ainda há fresco pela manhã.
Havia muitas outras pessoas a correr entre Botafogo e a Glória. Também a andar de skate, bicla, etc. Há sempre muitos tropas ou outras forças do exército ou da polícia a correr em grupo.
Também se ouvem papagaios no alto das palmeiras (parecidos aos papagaios lisboetas, na Alameda da Universidade, de volta dos eucaliptos). De vez em quando consegue-se vê-los, mas estão mais presentes pela chinfrineira.
Mas do que gostei mais foi de uma lagarta verde alface gigante (do tamanho de uma salsicha Nobre das latas de 10 ou 12). Atravessava a pista transversalmente. Lentamente...
Creio que a esta hora estará espalmada no alcatrão... Às vezes o exercício mata.

17 setembro 2014

Colonialista pedante

O pequeno colonialista pedante que há em mim tem crescido nos últimos tempos.

Episódio 1

Eu e uma amiga portuguesa.
Rita - Quero uma caipirinha.
Moço - Cachaça ou vodka?
Rita - Com cachaça.
Moço - Quer com hortelã ou [não me lembro]?
Rita - Com hortelã.
Moço - É só uma?
Eu - Sim, eu não quero. Obrigada.
Rita - Onde é que eu pago?
Moço - Ali ao de vermelho. ... São espanholas?
Nós - Não.
Moço - São francesas?
Nós - Não.
Moço - Italianas?
Nós - Não. Somos portuguesas

Portanto, reconheceu a língua, mas achou que eram estrangeiras que a falavam.


Episódio 2

Dois brasileiros.
1 - O Marcus agora está em Angola!
2 - Angola?! E ele está bem? Como é lá?
1 - Muito bom. E fácil. Lá também falam português.
2 - Falam português em Angola?! Mas como falam a nossa língua lá?!


Episódio 3

Eu e um brasileiro
Eu - Lá em Portugal também passou o Sítio do Picapau Amarelo.
Brasileiro - Jura?! Ah, já não lembro da música.
Eu - Só me lembro de um pouco. "Sabugo de milho é gente/ boneca de pano é gente /  o sola nascente é tão belo" [tudo cantado em brasileiro]
Brasileiro - Oh Marta, você quando canta fala bem português, mas quando fala só não consegue.
[AAAHHHH!!!]

Apetece-me sair pela rua cantando os Heróis do Mar.

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16 setembro 2014

Pão de Açúcar

Queria tanto um amigo para escalar, para realizar o desejo de quando sabia que vinha para cá (escalar o Pão de Açúcar e o Corcovado) que dei por mim, no passeio da Urca a interpelar as pessoas que passavam com uma corda às costas, perguntando como arranjava companhia para escalar, quase implorando que escalassem comigo.
Só recebi cartões de guias de escalada e o conselho de continuar por ali agarrada aos boulders, que alguém haveria de passar e depois seria possível meter conversa.
Assim fiz, meio desacreditada, mas pelo menos treinando um pouco.
Passado um tempo juntam-se dois rapazes. Um com ar de marroquino agarra-se à parede e ali anda para baixo e para cima. Quando também eu começo a fazer alguma coisa diz: não é assim. Começa do outro lado.
Segui o conselho, fui para o outro lado e colocava os pés e mãos onde me dizia. 
Decidi contar-lhe o meu desejo: ir ao Pão de Açúcar caminhando. Propôs logo que fossemos nesse momento. Aceitei, pois há oportunidades que são irrecusáveis.


A caminhada é fácil, embora a estivéssemos a fazer como se fugíssemos de uma onde gigante, com o objectivo de apanhar o casal da frente, que tinha uma corda que poderíamos usar na parte de escalada.

Descansámos, vi a vista, agradeci a sorte que tive, vi a cidade lá do alto, descemos de bondinho até à Urca, depois descemos a trilha, aprendi a saída alternativa quando o portão fecha, combinámos uma cervejinha para a noite e uma escalada para outros dias.

Foi bom!

Passados dois dias, estava de novo a escalar o Pão de Açúcar. Foi muito melhor. Um sossego, uma companhia muito porreira.

Bom demais!

15 setembro 2014

O melhor

Ontem, foi o Santa Teresa de Portas Abertas. Santa Teresa é um bairro de artistas e em alguns fins-de-semana eles abrem as portas dos seus ateliers para as pessoas poderem visitar. Fui lá com uma amiga dar uma volta. Parámos num terracinho para beber uma caipirinha. Enquanto conversávamos uma menina de uns 7 anos aproximou-se de mim. E depois disse baixinho a olhar para os pés:
- Você é muito bonita.
Nem acreditei no que ouvi.
- Quem? Eu?!
- Sim. Você é muito bonita. - repetiu ela sempre com os olhos no chão. E foi-se embora.
Fiquei encantada!... Foi o melhor elogio que já recebi.

09 setembro 2014

Para dar um pouco de vida aqui ao cantinho... umas imagens

O Rio tem muita praia e muita floresta, mas com todo o medo que é inculcado sobre assaltos e estupro (já apanhei algumas palavras) acabo por procurar zonas de ausência de carros (ruído e fumo) pertinho de casa. Sei que ainda tenho muito para onde ir, mas a investigação tem tirado o seu tempo e ainda não fui a sítios que tenho a certeza de que gostarei. Também não quero esgotar os motivos para passear antes do tempo (ainda falta tanto para regressar!).
Assim, vou guardando alguns locais que sei que serão fenomenais e passeio-me pelos mesmos sítios, que se vão tornando familiares e acolhedores.


07 setembro 2014

dia 24 - saudosa

Um brasileiro sessentão ou setentão meteu conversa comigo. Disse que os portugueses se distinguiam logo, que ele os identificava a olho. Falou então sobre o Brasil, sobre Portugal, contou muitas histórias e disse que um dia iria outra vez a a terras lusitanas. "Não sei porquê gosto daquele país".
Eu também não sei porque gosto. Mas gosto muito.
Fico imune às fotografias que trouxe a família, às conversas no skype, às lembranças do dia-a-dia que não estou a viver, aos desenhos da minha filha que me acompanharam, mas assim que a eu reconheço o meu país por qualquer indício mínimo (como as tabuletas castanhas que assinalam monumentos) vem uma lagriminha aos olhos.
Que país é este, tão desgraçado, usado, deteriorado, pobre, infeliz e ingrato que é capaz de congregar tanto amor de tanta gente?! 

O Brasil, por ter como parte da sua história a história de Portugal, acabou por se apropriar de todos os acontecimentos lusos até hoje como seus. E fazem-no com orgulho e com simpatia. Dizem: Este ano comemoramos os 40 anos da revolução! Porque é verdade que eles também celebram essa data como se fosse sua.

O 25 de Abril, o Grândola Vila Morena, o Fado Tropical e o Tanto Mar, em separado comovem-me. Todos juntos, aqui desterrada e saudosa, fizeram com que numa palestra eu parecesse estar num velório, tal a quantidade de lágrimas que me escapavam dos olhos.

Do 25 de Abril comove-me a vontade de um povo, a união, a esperança e também a inocência antes da constatação de que afinal "a vontade do povo" tem pouca força num povo sem vontade, que tem como lema "se é de todos, vou tirar a minha parte".

E ainda assim, gosto muito...