29 agosto 2014

Dia 15

Iniciei as minhas pesquisas e visitas a arquivos. Iniciei também um processo de aprendizagem sobre um mundo hiperburocratizado, ilógico e policial sem sentido.
Vou contar-vos uma anedota: chama-se Biblioteca Nacional do Brasil. 

Episódio 1 - O elevador.

Introdução: Na BNB existem dois elevadores para toda a gente - pessoal, leitores, turistas, equipas de limpeza. Um dos elevadores não funciona. O que funciona só leva 7 pessoas. As escadas existem, mas é proibido utilizá-las. A recepção é no piso 2, os manuscritos no piso 3. Um lanço de escadas de diferença.

A anedota da vida real: Cheguei à BNB, fui à recepção, identifiquei-me, deram-me a chave para o cacifo. Informei que já tinha o impresso a pedir autorização para levar o computador para a sala e perguntei o que era necessário fazer para o levar. Responderam que tinha de ir ao 3º piso, dos manuscritos, para que ele fosse assinado.
Deixei as coisas no cacifo, levei a autorização para assinar, passei num segurança, cheguei ao elevador, esperei 5 minutos para ter vaga lá dentro, subi, fui à sala de manuscritos, pedi a autorização, mais 5 minutos para conseguir descer, passei pelo segurança de saída, fui aos cacifos, peguei no meu saco de plástico transparente com o computador, cabos e rato lá dentro e fui até ao segurança de entrada, que informou que o saco não podia subir. Tentei demonstrar-lhe as vantagens de um saco transparente, que permite que se observe tudo o que vai lá dentro, e tentei fazer-lhe ver como era difícil equilibrar tudo nas mãos (ainda havia o lápis, a autorização, as requisições, telemóvel e folhas brancas). Irrevogável. Comecei a maldizer o país e fui deixar o saco no cacifo equilibrando as coisas no computador. Subi, com a eterna espera pelo elevador.
Comecei as minhas consultas e quis ter acesso à internet para consultar um texto teatral. Disseram-me que isso era na recepção. Desci, na sempre eterna seca por ter vaga no elevador, enquanto via a gigantesca equipa de limpeza composta por várias mulheres e um rapaz efeminado, cada um com o seu pano numa mão e o smartphone na outra, e cujo trabalho consistia em passar o pano por todos os objectos e paredes que estivessem entre a cintura e os ombros. Acima e abaixo desse nível nada é limpo, porque obriga a mexer o resto do corpo.
Desci. Fui a recepção. Deram-me o login e password. Subi - tic, tac, tac, o tempo a passar e eu sempre a perguntar coisas parvas: porque não podemos usar as escadas? para ter respostas igualmente idiotas: são as normas.
Cheguei pela 3ª vez à sala de manuscritos, mas não consegui ligar a net. O rapaz disse o que me dizia desde o início: tem de ir à recepção com o computador. Fui. Seca para a apanhar o elevador, sempre cheio de pessoal da limpeza. Desci, mas não consegui chegar à recepção, porque o segurança da saída, exigiu que eu apresentasse a autorização para andar com o computador. Sem a autorização não podia sair. Tentei mostrar a estupidez de tal exigência, mas a segurança, com um sorriso muito simpático e bonito, foi irrevogável e tentou enganar-me com a simplicidade da coisa - ela disse "é só ir lá a cima". Ao que eu respondi: ir lá acima e descer são 10 minutos à espera do elevador. E ela respondeu: Então faz isso.
Subi então pela 4ª vez à sala de leitura. Ainda não tinha feito nada - só subido e descido na merda do elevador. Peguei na autorização, desci. A segurança leu a autorização com toda a atenção, verificou o computador e deixou-me sair mostrando o seu sorriso simpático. Fui à recepção, corrigiram o erro, a net existia finalmente no meu computador. Saí de lá em direcção ao segurança de entrada, que leu muito a bem a autorização e verificou o computador. Subi, depois do segurança do elevador me ter deixado entrar na 3ª vez que o elevador passou. Entrei na sala de pesquisa, pus o meu manuscrito ao lado do computador, abri a página electrónica que queria e comecei a investigação. Tinha passado uma hora e meia!...

18 agosto 2014

Dia 5

Ainda não sei se sou turista ou família afastada.
Não me sinto turista, sinto-me enturmada. Não há coisas verdadeiramente estranhas que desafiem os meus hábitos e costumes*, entendo toda a gente, eles quase sempre me entendem, as novas tecnologias permitem ter a família em casa comigo. Enfim... Acho que ainda nem tive saudades. Mas penso com receio nos próximos meses que aí vêm - as saudades quando se abatem é como uma tempestade tropical - repentina e com brutalidade!





















* A senhora que está sentada dentro do elevador e carrega no botão do andar por nós; os rapazes que põem as compras nos sacos de supermercado; e o facto de os obesos, junto com grávidas, idosos e deficientes, fazerem parte do grupo de pessoas com assento prioritário no autocarro, tudo isto, na realidade, me causa alguma estranheza.

10 agosto 2014

banalidade

A normalidade é tão boa!
Acordar, ver a filha ainda a dormir, tomarmos o pequeno-almoço, irmos ao parque, ela a andar de bicicleta enquanto eu leio um livro.
Irmos à praia, fazer buracos e vulcões na areia, tomarmos banho, ela come um gelado, eu fico-me pela mini.
Vermos um filme de animação, ela ri-se às gargalhadas, eu interrogo-me como é possível porem o ar condicionado tão frio.
Darmos um passeio de bicicleta até ficarmos as duas com fome, e só chegarmos a casa depois do sol posto.
Estarmos em casa, ela inventa um restaurante, onde comemos o jantar escolhido num menu com alguns erros ortográficos.
Desenhos por todo lado, a toda a hora. A música da Violetta a toda a hora. O som das músicas dos jogos do tablet a toda a hora. Ela a falar a toda a hora.

Como se passa do "ela em todo o lado a toda a hora", para "ela em lado nenhum nunca"?

Dizem que 4 meses passa rápido. Sim, mas só quando chegam ao fim.