25 junho 2014

O sono fugitivo

O sono fugiu.
Primeiro porque havia uma candidatura a ser feita, com poucas esperanças de resultados.
Depois houve um colóquio a organizar em simultâneo com a escrita de uma comunicação.
Depois mais novas candidaturas e redacção de projectos.
O sono voltou por uns dias, até que a data de publicação de resultados se aproximava.
Os resultados vieram, a bolsa foi conquistada e o sono bazou diligentemente para parte incerta com todas as novas questões se colocavam: viagens, alojamentos, financiamentos, preços, escolhas, distâncias, indecisões, dúvidas, perplexidades. O sono desapareceu.
Depois a cada decisão tomada, o sono regressava mas por breves momentos, porque as decisões, apesar de tomadas, continuam a angustiar pela incerteza de terem sidos as melhores.
Aproxima-se o momento, a viagem, a partida, a aventura e o sono foge, foge, foge...
Quando voltará uma noite bem dormida? 
Cá? Lá? Ou só depois, cá?


24 junho 2014

Castelos de areia

Uma criança portuguesa, como muitos portugueses, frequenta a praia. E tal como os outros infantes portugueses faz construções na areia. Quando o mar chega ao castelo ou torre ou magnífico palacete, este fica inevitavelmente destruído pela fraca mas potente força da ondinha à beira mar. Mesmo que se remedeiem as paredes com nova areia após a primeira vaga, sabe-se que não durará muito tempo, porque o mar tem força e areia desfaz-se.
Este ilustrativo episódio pode ter ocorrido ontem, há 10, 20 ou 50 anos, ou mesmo, poderá ocorrer amanhã.
Resumindo: aí pelos 4, 5 ou 6 anos qualquer criança tem consciência que fazer castelos de areia junto ao mar, não é coisa durável. As crianças crescem, ficam adultas e mantêm o mesmo conhecimento, porque vêem todos os anos, com os seus próprios olhos, que o mar e a areia continuam a ter as mesmas características, sendo que o mar leva a areia para onde quer e quando quer, e a areia não dá luta.
Há contudo algumas pessoas que, estranhamente, não passaram por esta experiência pueril. Ou não tiraram dela as conclusões devidas. Acontece...
Aborrecido é que estas crianças se transformem nos  presidentes de câmara, engenheiros e outros profissionais que acreditam que se podem recriar areais, enchendo praias com areia que o mar a tirou de lá. 

Amigos, não é possível!!! A sério!..

Mas, não querendo que autarquias sofram com a redução do comércio balnear, deixo uma sugestão, pelo menos para a Costa da Caparica: arrasem os bairros de barracas (também denominados de "parques de campismo") e façam O-Maior-Areal- da-Península-Ibérica*! Asseguro-vos que terão umas praias lindas, de extensos areais a fazer lembrar postais das Caraíbas, onde todas as crianças terão espaço para aprender a efemeridade dos castelos de areia, contribuindo assim para um país com maior nível de inteligência política. 



* Em Portugal, quando uma coisa é grande a valer, é sempre A Maior da Península Ibérica. 

06 junho 2014

o sofrimento do investigador

Dias, dias, meses, anos a pesquisar uma informação. Sempre a colocar uma nova hipótese sobre onde essa informação possa estar, que outros fundos a contêm, sob que outros títulos poderá estar classificada.
Encontra-se um novo fundo que parece responder à nossa pesquisa. Guardamos todas as esperanças para esse novo documento. Esperamo-lo com ansiedade no silêncio da sala de leitura, com a esperança de que corresponda aos nossos anseios. 
Chega e manuseamo-lo com cuidado - afinal, é lá que está o tesouro.
Todas as palavras, fólio após fólio, são lidas do princípio ao fim para que não se perca nada. A cinco palavras do fim do documento guardamos a esperança para que seja mesmo ali, no final, que está tudo.

MAS NÃO ESTÁ, PORRA!

Tanta coisa documentada e do que eu preciso nada! O meu homem andou à paisana no séc. XVIII? Undercover?!

Aparece, gajo, que eu estou à tua espera para te fazer um elogio laudatório!

05 junho 2014

A inutilidade da ferida

Pela boca do protagonista, o Jonathan, que passou a maior parte da vida magoado por um amor não correspondido, diz a Pearl S. Buck a respeito das dores da alma e do coração : "O pior não é a ferida, mas a inutilidade da ferida."
O Jonathan era responsável, honesto, homem de família, trabalhador, circunspecto e pouco dado a desejos que não fossem o melhoramento da sua cidade e o bem da sua família. Teve obstáculos na vida, superou-os, foi pai de família e marido, prosperou, ganhou o respeito e admiração dos que o rodeavam. Já velho, a mulher morta (por quem nunca se tinha apaixonado nem sentido um grande amor), os filhos independentes (nenhum deles excepcional como gostaria), constatou que nunca foi feliz.
Admirou (e invejou) o amor entre outros casais por nunca ter experimentado o mesmo.
Um dia, ao constatar o respeito e carinho que a sua cidade tinha por si, sorriu. Foi tudo o que de mais alegre fez na sua longa e preenchida existência.