15 janeiro 2013

Lido e visto

Lido:

A boneca de Kokoschka de Afonso Cruz

De início parece um pouco esquivo, as frase não entram bem e causam alguma estranheza, mas com a continuação da leitura descobre-se muito humor nas pequenas coisas e tudo é dito de uma forma muito mais rica que a linearidade. O fio narrativo é interrompido várias vezes, o que faz com que se perca o rasto às personagens e também as relações entre elas e o contexto em que nos foram apresentadas. Mas no final tudo se liga e mesmo o singular arranjo gráfico ganha significado e cobre as personagens de mais substância e torna-as mais próximas.
Pena ter sido lido em quase um mês, precisa de uma leitura corrida para ser bem apreendido e melhor apreciado.
Ainda tenho de o reler... porque acho que há bem mais prazer a retirar destas histórias e personagens.

Visto:

A 20 de Novembro dos Artistas Unidos

No teatro, e também no cinema, dificilmente me consigo abstrair do facto de estar numa sala, com outras pessoas, da sala, da luz das cadeiras, dos actores, das roupas deles, do texto que dizem, etc. Ver um espectáculo só um actor é logo para mim constrangedor, porque sei que eu e outras tantas pessoas vamos estar o tempo todo a olhar para uma só pessoa a reparar em tudo o que for mal e bem feito. Quando esse actor é relativamente desconhecido (pelo menos para mim) ainda me constrange mais porque penso que vai estar a ser avaliado por todos nós. Quando o texto se trata de um monólogo dito por alguém jovem que vai assassinar indiscriminadamente miúdos numa escola, com apenas uma motivação estúpida para o fazer, ainda me encolho mais, porque é complicado representar tudo isso, e é difícil dar realismo a essas motivações. Quando o espectáculo começa e me apercebo que as luzes sobre a plateia não são apagados ainda me assusto mais, porque percebo que vai ser um espectáculo onde o público está conscientemente presente.
E depois começa o espectáculo: o actor está bem (apesar de haver uma espécie de gaguez forçada que lhe tira consistência), o texto ás vezes desadequa-se (quem interpela o público dizendo-lhe "A tua filha está a foder com um gajo da tua idade", não usa o condicional numa pergunta como "Que gostarias de fazer?", mas sim "O que é que gostavas de fazer?").O único senão é que o público para quem o rapaz fala, não é aquele que está ali. Não é um público de BMWs e prostitutas e vidas frustradas: são pessoas que decidiram ir ao teatro. O público é chamado várias vezes a fazer parte do espectáculo, mas, como público, hesita entre responder ou não. Não sabe se há-de fazer parte desse espectáculo ou deixar-se manter apenas como espectador. 
É um espectáculo agressivo. Tanto no texto, como o contexto, como para o público.
Como disse a minha amiga "Pareces assustada." 

2 comentários:

Paula disse...

:) Tinha pensado n'"O Pintor Debaixo do Lava-loiça", também do Afonso Cruz, mas não encontrei. Ainda bem que gostaste (ou que acabaste por gostar). Beijinhos

mm disse...

Mas gostei. Gostei muito do final. Só que acho que como demorei muito tempo a ler perdi um bocado. entretanto reli partes e ficou muito mais rico. É um livro cheio de histórias entrecruzadas.