17 novembro 2012

ler

Criam-se tantas expectativas com o primeiro ano, com a iniciação no mundo da leitura e dos livros, e depois o mundo das letras revela-se um inferno familiar.
Não consigo lidar com o facto de ter uma filha incapaz, quando chega à leitura. Só consegue dizer disparates uns a seguir aos outros sem qualquer noção do que acabámos de repetir. Não tem memória, não tem esperteza, não tem raciocínio lógico, não tem intuição. É quase como se lhe estivesse a pedir para ler palavras em cirílico sem nunca lhe ter sido ensinado nada.
Sou capaz de lhe dizer 30 vezes "te" a apontar para a última sílaba de "tomate", fazê-la repetir o som, fazê-la repetir a frase "o som "T" mais o som "E" faz "te"" 10 vezes, e quando lhe peço para ler a palavra diz disparates como "tomame", "toma"... até "sapato" pode dizer.
Não consigo compreender que falha de raciocínio é que ela tem para a ajudar e acabo por passar três horas* ao lado dela, normalmente aos gritos e a esmurrar a mesa. 
Fico exasperada, frustrada, ansiosa, angustiada... Não sei como a hei de ajudar, gostava de não a frustrar, mas não consigo. Tento esquemas diferentes, imprimo quadros para divisões silábicas que eu mesmo invento, exercícios novos que penso que a vão ajudar no problema que detectei anteriormente e nada ajuda. 
Com isto percebo que nunca poderia fazer ensino doméstico e pergunto-me como conseguiria lidar com uma criança com atrasos. Talvez fosse diferente. Só podia ser. Se não não poderia ser mãe.
A escrever safa-se. Nos ditados corre tudo bem e mesmo no inventar frases e escrevê-las. A ler é que é o caos. O que é que faz com que um processo corra bem e outro, tão semelhante, não tenha linearidade nenhuma? Sei que tem de certeza uma relação com a falta de audição dela, mas não sei como. 
E depois, parece que não podemos dizer que a nossa filha é burra. Quando há um problema temos de aceitar que ele existe para tentar resolvê-lo. A minha família, com o amor que lhe tem, tem dificuldade em concordar comigo e não aceitar que ela tem dificuldades é permitir que essas mesmas dificuldades permaneçam.
Não podemos fazer-lhe os TPC porque ela está frustrada e chora e diz que a cabeça dela não é boa. É preciso insistir para ela fazer as coisas sozinha. E é nesta insistência que se estragam os finais e inícios de dia. Porque depois de 3 horas disto ainda é preciso limpar a casa, fazer o almoço, preparar um bolo para um lanche, arranjar a bicicleta, enviar mails, arrumar o escritório, lavar a loiça, aspirar a casa, escolher a roupa para lavar... de forma que o tempo passado em casa é uma espécie de escravatura doméstica. A única coisa que depois consigo fazer é ver filmes para ver se não penso em nada. Mas os choros e a frustração dela e os meus gritos nunca me saem da cabeça.

* E ainda só fizemos um quarto dos TPC...

5 comentários:

Jose Maria Oliveira disse...

Quanto a mim a tua filha não tem qualquer problema. Nenhum!!! Mesmo!!! A leitura pode ser uma conquista que leva muito tempo. Muiiiito. Algumas crianças leem mais cedo do que outras, mas normalmente escrevem todas antes de lerem. Para eles, aprender que "t" mais "e" se lê tê ou té ou te, é mesmo muito complicado. Só com o tempo e com muitas palavras a passarem-lhes pelos olhos é que percebem como a coisa funciona. Aconselho-te a leres muito com ela. Lê tu para ela e com o dedo por baixo de cada palavra. Leiam sempre juntas e devagar, procura livros escolhidos por ela e um dia ela vai descobrir que consegue ler sozinha. Gritares com ela e desesperares só a vai fazer sentir-se insegura e com medo de dizer disparates. Deixa-a dizer disparates e nunca grites com ela. Assim a coisa vai funcionar, mais cedo ou mais tarde. Não deixes que ela ganhe medo de aprender a ler, que ache que isso não é para ela ou que nunca vai conseguir. Tens que fazer da leitura uma conquista divertida, e dar-lhe tempo, que é coisa que não se dá às crianças de hoje. Vais conseguir! Mas com muita paciência. Tenta compreender a cabeça dela, põe-te no lugar dela e imagina-te a aprender chinês...
Um beijinho, Raquel

Pekala disse...

e se falasses com o professor e explicasses a situação?talvez consigam arranjar uma forma de dar a volta a questão.estares a enervar-te não é bom nem pra ti nem pra ela (falo por experiência:P),tu ficas stressada porque achas que ela não vai conseguir e ela ao ver-te assim fica a acreditar que realmente não consegue.
uma das coisas que nos disseram na aula de apresentação foi "não alimentem expectativas,não esperem que todos os míudos já saibam ler e escrever no fim do primeiro período ou mesmo no fim do primeiro ano,tenham paciência" e a verdade é essa:ainda agora começaram.Vê o lado positivo,já se desenrasca muito bem a escrever e quanto à leitura há-de lá chegar,todos chegam:)
beijinho*

Carla R. disse...

Mas a tua filha não começou apenas o ano em Setembro ? Não sei quais são os objectivos, mas aqui a professora disse-me que o objectivo era aprender a ler até ao final do ano. Ainda agora começaram...
Nunca ficamos mais de 20 minutos com os TPCs, os que não fazemos, explico à professora que logo fazemos no dia a seguir ou no fim de semana e ela aceita, sem stresses.

Julieta disse...

Os meus filhos aprenderam com o método das 28 palavras e tenho a dizer-lhe que em ambos senti essa dificuldade que descreve. Por algum motivo, esse método parece ter ser efeito (inicial) nas crianças, baralham-se muito mais com as sílabas do que as crianças que aprendem no método tradicional. A primeira vez que passei por isso confesso que achei que o miúdo nunca ia aprender a ler. Da segunda vez, com ela, já estava mais preparada mas os niveis de frustração de ambas, meu e dela, não foram muito menores. A boa noticia é que, de um momento para o outro, dá-lhes o "clic" e começam a ler perfeitamente.

Se a consola de alguma forma, tenho a dizer ainda que que me revi por completo em cada palavra e pensamento seu. A frustração, a falta de capacidade para explicar, a falta de paciência, a exaltação e, no fim, a culpa!
Coragem! daqui a uns meses vai ouvi-la ler e pensar que foi afinal um enorme desperdicio de energias e de calma e, no fim, tudo se resolveu.

mm disse...

Obrigada pelas vossas palavras. Já fiquei mais calma e segura das capacidades da Mariana. As conversas com outras pessoas também me fizeram ver que estava a ser demasiado exigente (embora apenas tentasse corresponder aos trabalhos de casa que lhe tinham sido pedidos). Espero deixar de a torturar nos TPC.
Marta