26 novembro 2012

Sobre a condição física

Correr, comer, dormir, estirar, não comer, alongar.. de tudo isto bem feito depende a minha condição física.
Umas vezes está melhor, outras pior, mas nunca ficou como eu queria. Não que eu queira ter uma silhueta impossível de consolidar com o meu corpo, mas porque quando estou no bom caminho desvio-me sempre. Devo estar umas 50 ou 100 vezes por dia no bom caminho e acabo sempre por seguir atalhos para zonas impróprias.
Ainda no fim-de-semana, mesmo com a chuva ininterrupta que houve decidi ir ao mercado. Precisava de fruta. Era impossível ter uma boa alimentação sem fruta e era essa a razão (dizia-me eu...) dos últimos desaires. Lá fui. Carreguei com um saco bem pesado para casa, tão pesado que tive de ir trocando de mão durante o caminho, que alternava com a do guarda-chuva, tarefa complicada, e chegada a casa faço o quê? Torradas!! Tanto vegetal, tanta fibra, tanta vitamina e tanto esforço e fui-me lambuzar com farinhas, fermentos e gorduras animais. Deos Christi!!! 
Hoje fui correr. Já foram tantas as vezes que comecei a correr e que depois parei que nem sei. Corro sempre pesada, com esforço. Corri uns 40 minutos, mas foram 40 minutos de moleza e peso. Quando corro para o metro sinto-me tão ágil (tem dias, claro), sinto-me uma velocista, mas nesta práticas semanais faço jogging e o que eu queria mesmo era fazer corrida. Sonhar por sonhar já agora ultra-trail (Acho fantástico o ultra-trail. Adorava ter a força de vontade para conquistar a resistência e a força física). Voltando ao meu passo de corrida, vou a trote e quero mesmo é ir a galope. Já melhorei em relação à última corrida, mas nunca chego ao estilo de uma rapariga loura que vi no outro dia a correr no parque - era o retrato vivo  dos meus sonhos de fitness a passar por mim!

Mas não é só o meu Eu-Mental que me derruba, o Eu-Físico anda pelas horas da morte. Listando partes do meu corpo que já não são o que eram e aquilo que me impossibilitam de fazer, então temos assim:
pulso direito - pinos (que saudades de um belo pino!...), rodadas, flexões, etc...
ombros - pontes (a última vez que tentei senti-me a rapariga da escola que não tem jeito nenhum para Educação Física)
cóccix - abdominais (há de outros géneros, mas uma pessoa preguiçosa gosta de os fazer sentada)
tendões das coxas (têm outro nome pela certa) - espargatas (não que faça muitas vezes, mas era uma coisa de que sentia algum orgulho, das laterais)
dedo grande do pé e vários dedos das mãos - coisas variadas

Com tudo isto, não consigo fazer aranhas, cambalhotas atrás, rodadas, etc. etc. E a vontade vai-se com a impossibilidade de fazer as coisas. 

Blá.blá, blá.... 

(não sei quem me lê, mas eu já nem me posso ouvir com tanta lamentação... Vou ver as minhas séries e coser roupa)

17 novembro 2012

ler

Criam-se tantas expectativas com o primeiro ano, com a iniciação no mundo da leitura e dos livros, e depois o mundo das letras revela-se um inferno familiar.
Não consigo lidar com o facto de ter uma filha incapaz, quando chega à leitura. Só consegue dizer disparates uns a seguir aos outros sem qualquer noção do que acabámos de repetir. Não tem memória, não tem esperteza, não tem raciocínio lógico, não tem intuição. É quase como se lhe estivesse a pedir para ler palavras em cirílico sem nunca lhe ter sido ensinado nada.
Sou capaz de lhe dizer 30 vezes "te" a apontar para a última sílaba de "tomate", fazê-la repetir o som, fazê-la repetir a frase "o som "T" mais o som "E" faz "te"" 10 vezes, e quando lhe peço para ler a palavra diz disparates como "tomame", "toma"... até "sapato" pode dizer.
Não consigo compreender que falha de raciocínio é que ela tem para a ajudar e acabo por passar três horas* ao lado dela, normalmente aos gritos e a esmurrar a mesa. 
Fico exasperada, frustrada, ansiosa, angustiada... Não sei como a hei de ajudar, gostava de não a frustrar, mas não consigo. Tento esquemas diferentes, imprimo quadros para divisões silábicas que eu mesmo invento, exercícios novos que penso que a vão ajudar no problema que detectei anteriormente e nada ajuda. 
Com isto percebo que nunca poderia fazer ensino doméstico e pergunto-me como conseguiria lidar com uma criança com atrasos. Talvez fosse diferente. Só podia ser. Se não não poderia ser mãe.
A escrever safa-se. Nos ditados corre tudo bem e mesmo no inventar frases e escrevê-las. A ler é que é o caos. O que é que faz com que um processo corra bem e outro, tão semelhante, não tenha linearidade nenhuma? Sei que tem de certeza uma relação com a falta de audição dela, mas não sei como. 
E depois, parece que não podemos dizer que a nossa filha é burra. Quando há um problema temos de aceitar que ele existe para tentar resolvê-lo. A minha família, com o amor que lhe tem, tem dificuldade em concordar comigo e não aceitar que ela tem dificuldades é permitir que essas mesmas dificuldades permaneçam.
Não podemos fazer-lhe os TPC porque ela está frustrada e chora e diz que a cabeça dela não é boa. É preciso insistir para ela fazer as coisas sozinha. E é nesta insistência que se estragam os finais e inícios de dia. Porque depois de 3 horas disto ainda é preciso limpar a casa, fazer o almoço, preparar um bolo para um lanche, arranjar a bicicleta, enviar mails, arrumar o escritório, lavar a loiça, aspirar a casa, escolher a roupa para lavar... de forma que o tempo passado em casa é uma espécie de escravatura doméstica. A única coisa que depois consigo fazer é ver filmes para ver se não penso em nada. Mas os choros e a frustração dela e os meus gritos nunca me saem da cabeça.

* E ainda só fizemos um quarto dos TPC...

08 novembro 2012

sapato do Papu

A Mariana aprende pelo método das 28 palavras. É um bom método, não digo que não. Mas esperava que quando ela fosse para a primeira classe eu revisse algumas das palavras com que aprendi a ler.
Aprendi com o Papu. O Papu 1 e depois o Papu 2. As primeiras frases/palavras eram: O pai do Papu. O pópó do papá. O pau. E depois vinha o D: O dói-dói no dedo. O dado. Dói o dedo do Papu. E depois vinha... já não me lembro, talvez um T. E por aí fora até ao Z: A Zita ficou com azia porque comeu muitas azeitonas. E ao lado um desenho de uma miúda com a cara verde ao pé de uma árvore. Por causa da Zita livrei-me sempre de comer muitas azeitonas,com medo da azia.
Mas voltando às 28 palavras... a primeira palavra foi menina, a segunda menino e depois uva. É muito difícil fazer palavras e  frases apenas com as letras destas palavras, daí que tendo espreitado o livro e percebido que a quarta palavra seria um maravilhoso sapato, ansiava pelo dia em que ela a aprendesse. Foi hoje. 
Com o sapato poderemos escrever e ler tantas coisas! Vai ser espectacular! Podemos deixar o nove, nave, a avó do Ivo e da Eva que ouve uma ave e vê um ió-ió.
Pato, sapato, sopa, povo, põe, mapa, papa, tapa, soma, toma, são, eu sei lá! É o mundo!

05 novembro 2012

Um Dó Li Tá

Tenho um problema de fidelidade extrema: quando inicio qualquer relação com alguém ou alguma instituição custa-me deixá-la.
Quando andava na ginástica mudei de classe várias vezes. A modalidade que eu queria mesmo praticar estava-me interdita (por mau comportamento), mas eu não consegui deixar o ginásio onde estava para ir à procura do que gostava. Fiquei no mesmo ginásio, durante anos, saltitando de classe em classe.
No secundário também não fui capaz de mudar de escola para uma onde os professores davam notas mais altas.
Quando arrendei a casa senti-me uma traidora a todos os visitantes interessados quando finalmente escolhi os inquilinos que lá iam ficar. 
Hoje sofro enormemente com o dilema de qual o empreiteiro escolher para as obras de casa: o referenciado? o mais barato (a diferença é mínima)? os que me pareceram mais à vontade com a obra? Sinto que os estou a trair a todos. 
Ainda por cima, como tenho visto o Downton Abbey de uma forma obsessiva, acabo por me sentir como o Lord Grantham a velar pelos seus criados: quero o melhor para eles, mas não posso permitir que a minha posição saia prejudicada.

04 novembro 2012

Hoje foi o dia

Preenchi algumas lacunas da minha existência como portuguesa, lisboeta e estudante de humanísticas: fui ao Museu Nacional de Arte Antiga. Vi à distância de dois palmos dos meus olhos os Biombos de Nambam, os Painéis de S. Vicente de Fora e a Custódia de Belém. Obrigado, dias de chuva anunciada, mas sem queda de precipitação.
Os Biombos de Nambam ficaram-me do tempo da Expo'98 e da Livraria do Pavilhão de Portugal. Todos os dias vendíamos cassetes da animação feita a partir das imagens dos biombos. Vendíamos postais, lenços, cadernos, etc, e e explicávamos em várias línguas o que eram os Biombos. As imagens rodearam-me durante imenso tempo, mesmo depois da Expo acabar, e sempre quis ver a origem daqueles desenhos. Vi. São mesmo engraçados. Não sei porque é que o Museu não vende puzzles com partes da imagem.
Os painéis de S. Vicente fazem parte da cultura portuguesa: o grande tríptico, o Nuno Gonçalves, é ou não é o Infante? Tinha de ir ver.
E a Custódia? Pois, sobre a Custódia, é a história de ter sido feita por Gil Vicente. Ainda me custa acreditar que o Gil Vicente além de dramaturgo fosse ourives, mas... Já muita tinta correu sobre o assunto e a tese de que ele é o ourives está bem defendida. Ainda assim faz-me confusão. Olhei para ela bem de perto e não vi lá nada do Gil Vicente dramaturgo, mas ele deveria saber separar o sagrado do profano quando era necessário.
Ainda deu para pôr os pézinhos no lindo jardim do Museu (espectacular!) e finalmente percebi onde vai dar aquela escadaria imponente e maravilhosa que se vê da 24 de Julho.
Foi um dia cheio de aprendizagem.
Como mãe e como estudante de teatro preenchi outra lacuna enorme: fui ao Museu da Marioneta! É giro, tem muitas marionetas, mas era bom que fosse mais interactivo, que se pudesse ver um bocadinho de teatro sem ser em vídeos de péssima qualidade. O espaço do convento é muito bonito, apesar de ter algumas partes velhas a precisar de restauro. Gostei também muito de ver os bonequinhos feitos pelas alunas da Ana Ventura.
Foi um dia a preencher lacunas. É bom. Nem sei há quantos anos me dizia a mim própria que tinha de ir ver estes dois museus. Hoje foi o dia!