28 setembro 2012

...

Estávamos no carro e eu explicava-lhe que vinha um amigo da mãe jantar a nossa casa. Que não era português, era de outro país e que não sabia falar a nossa língua.
- Oh, mas assim não posso conversar com ele.
- Ele sabe dizer e compreende algumas coisas.
- Sabe dizer "olá"?
- Sim.
- E "adeus"?
- Também.
- Está bem.
Com o conhecimento destas duas palavras seria possível ter uma conversa com princípio e fim. 
Continuei a falar do amigo: que ele há muitos anos tinha estado em Portugal...
- [entretida com os bonecos]
... que nós os dois  tínhamos ficado amigos nessa altura...
- [entretida com os bonecos]
 ....e que ele se tinha ido embora antes dela nascer. 
- É o meu pai? - pergunta ela de imediato.

Conclusão: qualquer pessoa que se tenha ido embora antes dela nascer é um pai em potência. Que fasquia tão baixa... e, infelizmente, tão verdadeira.

Irmã mais nova

A primeira lembrança que tenho da minha irmã mais nova é de quando fomos visitar a nossa mãe à maternidade, depois do seu nascimento. Fui com o meu pai, a minha irmã mais velha e os meus avós. Lembro-me de ficar muito contente de ver a minha mãe, e eu e a minha irmã mais velha deitámos ao lado dela na cama e ficámos radiantes por isso.
Depois foi trazido um bebé pequenino e todas as pessoas olharam para ele. Tiraram-lhe a fralda e tinha um cocózinho pequenino.
Acho que se não fosse o espanto que me causou não só o tamanho minúsculo daquele cocó, como o facto de constatar que os bebés também o faziam, não tinha nenhuma memória tão antiga da minha irmã.
Da pré-primária só tenho memórias da minha irmã mais nova, não da mais velha,o que é estranho, porque a diferença de idades é maior com a primeira. A história de que me lembro melhor não a vou contar aqui, principalmente depois de uma memória sobre cocó.
Agora, de vez em quando, a minha irmã mais nova também me espanta: cresceu muito, é uma adulta nos 30 e já não é mimada. Como a continuo a ver como irmã mais nova fico surpreendida com a sua responsabilidade, a disponibilidade dela para ajudar e a inteligência (é muito esperta, embora o esconda por baixo da timidez).
É uma excelente pessoa, um adulto exemplar, mas eu continuo, instintivamente, a ir buscar a mão dela quando atravessamos juntas a rua . 


27 setembro 2012

A escola nova

Desde o início do ano lectivo tenho encontrado cada vez mais conhecidos: desde colegas do secundário, universidade, amigos do bairro, do Bairro, dos treinos, e de amigos. É só distribuir "olás" e "como estás", sorrir para aqui e para ali e ficar surpreendida com cada reencontro com um passado. Além de tudo isto, ainda há o bónus de nas redondezas da escola encontrar outros conhecidos que não têm lá as suas crianças, mas moram ou trabalham por ali. Tem sido um fartote de cumprimentos. Ninguém é ou foi meu grande amigo, mas o estar rodeada de pessoas que conheço de longa data faz-me sentir mais em casa naquela escola. Pois sim, eu sei, não é a minha escola, não sou eu que estou a fazer a primária, mas, pela parte que me toca, estou a gostar muito desta ingressão no mundo escolar.

17 setembro 2012

o grito popular


Na manifestação começaram alguma letras de músicas conhecidas a surgir na minha cabeça: eram melodias e palavras soltas que não conseguia identificar com um título, nem sequer cantar.
Hoje de manhã as músicas continuavam a ainda a na cabeça e iam ganhando forma. Finalmente consegui ter ideia de umas frases e fiquei felicíssima, porque a letra da tal música que já trauteava há dois dias tinha imenso a ver com o que se passa agora e com o que eu queria dizer. Fui procurar na net e encontrei letra e música. Vi que havia uma palavra que eu tinha confundido ("dito" com "grito"). Não sei se gosto mais da minha versão ou da original.
Cá fica o karaoke.

DESESPERAR JAMAIS - Ivan Lins

Desesperar jamais
Aprendemos muito nesses anos
Afinal de contas não tem cabimento
Entregar o jogo no primeiro tempo
Nada de correr da raia*
Nada de morrer na praia
Nada! Nada! Nada de esquecer
No balanço de perdas e danos
Já tivemos muitos desenganos
Já tivemos muito que chorar
Mas agora, acho que chegou a hora
De fazer valer o dito
[grito] popular
Desesperar jamais
Cutucou por baixo, o de cima cai
Desesperar jamais
Cutucou com jeito, não levanta mais
Bras. Fam. Fugir de, evitar confronto, compromisso, dificuldade etc.

13 setembro 2012

1º dia

Hoje foi oficialmente o primeiro dia de aulas.
Ontem arrumei o material necessário na mochila, mais a caderneta do aluno, pus etiquetas com o nome dela nos materiais, consultei o horário, vi que tinha Educação Física, e então procurei umas calças de fato-treino e os ténis. Nada do material que levava era novo, exceptuando as folhas.
Hoje na escola estavam os pais todos de máquina em punho a fotografar os futuros estudantes a estrear a roupa nova: as meninas cheias de folhos, sandalinhas, saias, cai-cais, cabelos entrançados, mochilas de cores vivas, enfim.
A Mariana estava deslocada dos outros porque  parecia que iam todos assistir a um baptizado, menos ela; por outro lado, achei que os outros miúdos é que estavam deslocados - não há baptismo ali. Além do mais, na reunião do dia anterior tinham dito aos pais para as meninas não levarem saias para educação física, nem sandálias, nem roupa ou coisas com atilhos e fitas. 
Ainda assim senti-me na necessidade de justificar a falta de aprumo da pequena e perguntei a uma mãe: "Mas hoje não é Educação Física?". Ela respondeu que não, não neste primeiro dia de aulas, mas que todas as outras 5ª feiras será. Ah... Então era isso?... Pois, a deslocada sou eu, a única mãe que não ouviu que hoje não havia EF e levou a filha para o primeiro dia de aulas vestida como se fosse jogar à bola com os amigos.

De resto, ficou bem sentadinha, mesmo em frente à prof, para não ter problemas de audição, com um miúdo que a chamou para o lado dele. Tinham-se conhecido no recreio, 10 minutos antes, e já são colegas de carteira.

Ah, o número dela é o 13. Ainda bem que não sou supersticiosa.

12 setembro 2012

A minha crise



Financeiramente, a minha vida está sempre no limbo: aguento-me, mas os gastos são no limite do possível, muita contenção, muita marca branca e poucos luxos. Vive-se.

No entanto, assim que há ou um corte nas receitas ou um aumento das despesas, tudo muda, seja ele pequeno ou grande, temporário ou permanente.

Desta forma, umas vezes somos uma família remediada, outras somos umas miseráveis.

Nesta semana soube de um grande corte nas entradas (uma receita vital para a manutenção desta família), que espero que seja temporário, embora não saiba por quanto tempo.

Tudo isto para dizer que hoje, quando entrei no supermercado para as compras do mês, tive de pensar um bocado. Com o carrinho de compras ainda vazio, interroguei-me: faço as compras como se estivéssemos bem ou como se fôssemos miseráveis? Para não entrar num espírito de ruína total inspirado na Pearl S. Buck, que me assolou o ano passado e que me deixou de rastos muito tempo, pensei positivo, acalmei-me a mim própria dizendo que era apenas temporário e comecei a pôr coisas no carrinho como se houvesse amanhã. Ainda assim, uma réstia de angústia fez despontar uma lágrima entre as prateleiras de material escolar.

06 setembro 2012

cresci e já sei andar


Quando ficava mal-disposta ou vomitava e alguém me perguntava "O que é comeste?" achava sempre a questão era inútil: se já tinha vomitado, se já tinha acontecido, porquê querer saber?! O importante era melhorar, deitar-me, procurar um balde e um guardanapo.
Agora, mais velha, mais experiente, já sei que a comida tem uma influência enorme nas nossas vidas: há o que dá sono (cerveja à tarde num dia de sol), o que desperta (a segunda bica), o que faz borbulhas (chocolate, frutos secos, azeitonas, etc.), o que dá gases (adoçantes, fermentos em farinhas),o que é diurético (cerveja, chocolate, café, aveia); o que ajuda na digestão (tantas coisas, tal como o vinho...), etc. Ou seja, é bom saber o efeito que as coisas têm em nós, que é diferente do efeito que poderão ter noutra pessoa.
Entretanto cresci no sentido de evolução intelectual (eu, pelo menos, acredito que sim), assim, dei-me conta que não é só aos efeitos da comida que devemos dar importância, não é só sobre isso que nos devemos questionar "Porque é que isto me acontece?".
Sei que disse que cresci, mas foi há muito pouco tempo. Até sentir uma necessidade de saber porque é que a minha vida é está no estado em que está, porque é que me acontece isto e aquilo, porque é que estou sempre sozinha, porque é que tenho de largar certos grupos e certas pessoas, porque é que entrego trabalhos com erros que podiam ser evitados, ou seja, porque é que estou sempre a colocar-me em situações onde nunca quis estar, até sentir essa tal necessidade, não questionava nada: acontecia, estava acontecido. O que havia a fazer era melhorar a situação.
Mas tenho compreendido que a auto-questionação, a auto-análise, o auto-conhecimento são úteis: podemos evitar coisas que nos desgostam ou encaminharmo-nos para outras que nos deixam mais felizes. 
Se por um lado me irritam pessoas que estão sempre a dizer "Eu sou assim" ou que que passam a vida a remoer as situações passadas; por outro, sei que é bom conhecermo-nos a nós próprios, para podermos encaminharmo-nos para um destino que mais nos agrada.
É inteligente, quando cairmos, 1) olharmos para trás e vermos o buraco, para não tropeçar no mesmo sítio da próxima vez ou para ter mais atenção a outros buracos que possam surgir; ou, 2) se o problema não for no caminho, mas nosso, percebermos que é mais seguro correr com os atacadores apertados e tratar do assunto e continuar o passeio.
Acho que, por agora, estou no bom caminho/caminhada, embora não conheça o destino.

04 setembro 2012

Rotina, chegámos!

A escola nova, a professora nova, os amigos novos e a nova forma de estar na escola causaram algum nervosismo à pequena criança que em breve será uma leitora certificada. No entanto, o desconforto não foi muito e à tarde, quando a fui buscar, ainda queria ficar lá mais tempo.
Na rotina também há sempre "papéis": papéis que alguém precisa e que nós temos que ir pedir a outro alguém noutro lado. Regra geral o "outro alguém" nunca ouviu falar do papel que nos pediram nem faz a mínima ideia da utilidade que tal coisa possa ter. Com alguma insistência nossa conseguimos um papel. Levamos o papel ao primeiro alguém que diz imediatamente que não era aquele papel que queria mas, depois de alguma explicação sobre a informação nele contida, declara que vai ver o que pode fazer e que se é só esse papel que arranjámos então que terá de dar. Isto ontem, para a escola dela; porque hoje, para a minha escola, mais papéis, mais "nunca ouvi falar em tal coisa, vou ter de falar com a Lurdes [ontem foi a Anabela que forneceu a solução]".
Pronto, agora é só preencher os papéis, entregá-los e acho que podemos ir à nossa vida como normal.