14 junho 2012

aconteceu

Foi hoje.

Foi hoje o dia em que a Mariana largou a bomba emocional que eu receio desde que ela nasceu, e mesmo antes.

Estávamos a chegar à escola hoje de manhã, ela vê uma colega e comenta: "Mãe, é a Rita. Ela vem com o pai dela. Porque é que eu não tenho pai?".

Só consegui responder "Não tens. Tens mãe." Continuámos a andar e de seguida o assunto já era outro - o Pedro hoje já ia à escola. Passado um bocado, regressa ao tema: "A Diana não tem pai nem mãe - tem uma professora. E o André também não tem pai - o Zé não é o pai dele." Peguei nesta deixa e disse: "Pois, o pai do André é o Bruno, lembras-te? Mas foi-se embora. Às vezes os pais vão-se embora." Mas não consegui dizer mais nada: que ela também tem um pai, que tem um nome, que se foi embora quando ela estava para nascer, que é uma pessoa que existe e anda para aí de uma lado para o outro, mas que a evita a ela.

O que posso atestar é que ela fez a pergunta temida e eu sobrevivi. Fiquei tensa. Não respondi, é certo, e tenho de responder. Tenho de dizer mais coisas. Tenho de atribuir um nome a essa entidade. Eu sobrevivi, mas queria que a minha resposta a tivesse assegurado de que ela não tem culpa nenhuma pela situação, que não a fizesse sentir-se abandonada; que não lhe criasse expectativas sobre a possibilidade de encontrar uma pessoa que existe, ou sobre a possibilidade de também ela ter um pai; queria que ela soubesse que é amada e acarinhada por toda a gente que a conhece, e que essas pessoas é que interessam; queria que "não ter pai" não lhe fizesse mossa, que não fosse um problema ou uma tristeza. Queria ter dado uma resposta onde tudo isto ficasse dito para sempre, mas não consegui dizer nada.

Só este ano é que ela ficou a saber o último apelido e foi na escola. Um dia contou-me: "Eu lá na escola também sou Sót." - não percebi à primeira - "Mariana  Sót." Quando compreendi tive a minha não-reacção costumeira: "Pois é". E também não lhe expliquei de onde vinha aquele "Sót", quem lho tinha posto. Não sabe pronunciar bem, mas gosta de o escrever de vez em quando.

Parecendo tudo correr tão bem e tão serenamente, vendo-a sempre bem disposta e sorridente no meio destas perguntas e (não)respostas, não sei porque me vêm sempre lágrimas aos olhos quando relembro a voz dela perguntar descontraidamente: "Mãe, porque é que eu não tenho pai?".

5 comentários:

pekala disse...

compreendo essa angústia,custa-te mais a ti do que a ela.mas se ela está de bem com a vida a culpa é toda tua;)e de certeza que vais encontrar as respostas certas para as perguntas "erradas".

gralha disse...

É tramado, lá isso é.

Carla R. disse...

Mas porque é que não preparas uma resposta que aches adequada para a idade dela ?
Sabes que essa pergunta vai surgir mais vezes...

mm disse...

Pois, carla, eu ando a pensar nessa resposta desde sempre, mas quando a pergunta surgiu não consegui dizer tudo o que tinha pensado. Mas também sei que vou ter mais oportunidades.
Outra coisa, vi hoje o teu blogue e gostei muito. bjs

Cheila disse...

ela deve estar tão nervosa como tu para tentar fazer a questão: o que perguntar, como, em que situacão...
vai acontecer mais vezes.
mas pode ser bom ser um história contada em várias fases, ires falando conforme ela quiser saber mais. aos poucos deixa de ser um problema para passar a uma realidade.