15 novembro 2011

guarda-chuva

O guarda-chuva fechado tocava ao de leve o chão de pedra da estação do metropolitano, marcando o passo da mão que o levava a passear. No tapete rolante o espigão de metal do guarda-chuva sentiu-se aconchegado nas ranhuras de metal e descansou da marcação do ritmo - parado seguia o seu caminho, equilibrado pela mão, que o impedia de tombar desamparadamente. A mão voltaria a erguê-lo no ar daí a pouco - a passadeira estava a terminar - e o guarda-chuva retomaria a marcação do ritmo do passo com o seu espigão de ferro no chão de pedra e depois na calçada.
Mas a mão puxou-o e o guarda-chuva não se ergueu no ar como previsto. A mão puxou com mais força, mas o espigão estava preso na ranhura de metal. Duas mãos tentaram arrancar o guarda-chuva, que entretanto ficou preso nos dentes finais da passadeira. Já não eram só as mãos que puxavam, também uma bota o pontapeava, tentando arrancá-lo às garras da passadeira rolante.
Ao lado saíam da passadeira guarda-chuvas balouçando nas mãos de quem os levava, e aquele ali, entalado, preso, com uma espuma cinzenta escura a crescer imparavelmente junto ao local onde o espigão estava preso, libertando um cheiro químico a borracha queimada e óleo. Parecia que estava a ser triturado pelos dentes, engolido pela passadeira rolante e transformado em espuma escura.
A insistência das mãos que o puxavam finalmente libertou-o da tortura.
Foi virado de cabeça para baixo para que os efeitos do entalamento fossem observados. Ao ver o espigão achatado, torto e rasgado soltaram-se gargalhadas em barda.
De imediato, o guarda-chuva voltou a marcar o passo, acompanhado pelos risos de quem o salvara.

3 comentários:

paulinha disse...

:)
Giro.
(não foi contigo, não?)

mm disse...

Ah, foi, foi. Depois do pânico e do receio de estragar a passadeira rolante do Metro e de ter de pagar uma nova, desatei-me a rir da minha figura a puxar por uma guarda-chuva com todas as forças.

paulinha disse...

:)
E se não se percebeu o que achei giro, mesmo, foi o texto. Como está escrito. Mas também deve ter sido giro para quem assistiu. Andas inspirada!