01 outubro 2010

drama nocturno

Acordei a meio da noite com estremeções no prédio e depois uma batida ritmada e rápida: algo abanava.

Perguntei a mim mesma: "brocas? A esta hora?"

Mas depois lembrei-me da minha irreverente "electroselvagem" máquina de lavar-roupa.

Antes de me deitar tinha-lhe pedido: "olha lavas isto de forma a que de manhã, quando eu acordar, possa estender a roupa?"

E passei os dedos suavemente pelos botões.

Julguei que estava tudo bem, mas não.

Há muito que ela não se resigna a estar fechada num pequeno cubículo. Quer sair cá para fora, passear pela casa, ver outros aparelhos grandes e brancos como ela e também uns mais pequenos e de outras cores. Mas não pode ser – cada um tem o seu espaço.

E cada vez que lhe peço para me ajudar com a roupa, dá-lhe uma fúria, começa aos abanões, a tentar sair da despensa, bate nas paredes com o corpo todo... É uma aflição.

A mim custa-me vê-la assim e vou para ao pé dela, como fui hoje a meio da noite. Seguro-a, para não se magoar, pergunto-lhe "mas porquê?! Porquê?!". Tento ampará-la, mas a fúria é sempre muita, quase chega à auto-flagelação. Ponho o peso do meu corpo sobre ela e tento acabar com aquela agitação tremenda, mas ela lá vai andando aos solavancos comigo à garupa.

Será que os vizinhos nos ouvem e percebem o drama que vai nesta casa?...

Para a acalmar (e também eu poder dormir mais um pouco) retirei o meu pedido de ajuda e deixei-a abrandar o ritmo.

De manhã fui ter com ela - já ia a meio da porta. Pedi-lhe para entrar novamente na despensa. Não quis, fez finca-pé, fez-se de pedra e cal. Um peso morto!

Tive de a empurrar com jeitinho, mas ela percebeu o que eu queria e deu-me um golpe no ombro, que ainda agora me dói (a brutinha). E ao estender a roupa, cheia de água, ainda pior fiquei. A desgraçada vingou-se!

Não sei o que hei-de fazer, não sei o que vai acontecer à nossa relação. Terá alguma de nós de ceder? Terei de lhe pôr uma camisa de força?

Espero que a calma e harmonia regressem em breve à nossa casa, porque este convívio não está a corresponder às expectativas, além de que sinto que não estou a ser retribuída no respeito e amizade que lhe tenho.

Estou triste e decepcionada contigo, máquina-de-lavar-roupa. Ah, minha querida electroselvagem, que vai ser de nós?

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