04 junho 2016

Djamila Boupacha

Veio parar-me às mãos um livro de 1966, tradução de Djamila Boupacha. Djamila Boupacha é uma mulher argelina, que em 1960 foi presa e torturada na Argélia por militares franceses.
Djamila fazia parte da FLN (Frente de Libertação Nacional), tendo colaborado levando medicamentos a militantes e também acolhendo alguns em casa. NO entanto foi acusada de ter colocado uma bomba num local público e foi por isso torturada. O livro conta o processo judicial e a forma como a libertação de Djamila foi conseguida, apesar de todos os entraves políticos, (i)legais e burocráticos que puseram ao processo.
O que para mim foi mais significativo nesta história foi saber a razão porque a Djamila decidiu ingressar na FLN. Ela trabalhava num hospital, na Argélia, onde esperava ser colocada como efetiva. A certa altura soube que as muçulmanas, que ela era, não seriam, nunca, colocadas como efetivas. Foi nesse momento que ela decidiu opor-se à colonização francesa.
A mim, que desconheço o processo de ocupação da Argélia, e a forma como a colonização foi feita, faz-me imensa confusão como é que um país, há pouco saído da II Guerra Mundial, de uma ocupação, de um infindável número de mortes que se auto-justificava pela "supremacia da raça" é capaz, depois de tanto ter sofrido e lutado pela igualdade, fazer exatamente o mesmo aos outros.
Como é que a França, 15 anos depois de ter sofrido genocídios por causa da religião, foi capaz de cometer exatamente o mesmo crime?!
Isto tudo, porque agora os muçulmanos (não todos, claro) querem que se considere a supremacia da sua religião, da sua raça. Alguém lhes deu a ideia, não? 
Em princípio, depois da grande descoberta de Charles Darwin, de que todos descendemos do mesmo "ser", dever-se-ia ter entendido que somos todos iguais. Caso houvesse alguns problemas de entendimento, a experiência pessoal ou nacional, de uma consideração infundada sobre os inferiores e superiores deveria ser suficiente para se saber que somos todos iguais. Mas não...
Na verdade, a religião ou a superioridade da raça é só uma desculpa esfarrapada para dizimar pessoas... O que me custa é que tantos a usem.

01 junho 2016

Perguntas inteligentes

Mãe, porque é que o dente-de-leão se chama dente-de-leão e não juba-de-leão? Os dentes do leão são aguçados e não redondos. A juba do leão é que é parecida.

19 maio 2016

A primavera ainda está aí?

Não se devia passar de Abril para Maio tão depressa.
Abril é aquele mês em que pensamos que todas as coisas que trazíamos vindas do inverno e do início do ano vão estar feitas e que, portanto, poderemos depois começar a dedicar-nos às coisas que queremos feitas antes do fim do Verão, pensando, estupidamente, que entretanto ainda vamos ter um mês de Primavera para ir viver com calma.
É tudo treta!
Ainda as tarefas de Inverno não estão finalizadas, quando nos apercebemos que não temos tempo para acabar as de antes do Verão. Saltamos de um stress em que ficamos neuróticos em casa por causa da chuva, sem conseguir despachar o trabalho com a rapidez necessária porque "precisamos de sol", para uma altura em temos de despachar tudo se queremos gozar umas semanas de férias sem estar sempre a pensar no trabalho.
Enfim, não há porque nos queixarmos do desaparecimento meteorológico da Primavera, porque no nosso tempo bio/neurológico ela também se foi.


17 abril 2016

Cal


29 março 2016

Xii!!!

Xii!!!!
Vai acabar Março e nem um post...
E tanta coisa na cabeça. Que penso, mas não escrevo.
Estas bombas... Estas bombas fazem-me pensar na forma como usamos o tempo. Como eu uso mal o meu tempo. As hesitações, as vergonhas, as dúvidas, os receios, para quê?! Depois acaba-se o tempo e não fizemos nada. Acaba-se a vida e não fizemos nada. Se uma bomba acabasse a minha vida o que é que eu teria pena de já não viver? E vivendo eu, o que faço para que um dia, quando a vida acabar de qualquer maneira, não me pergunte a mim própria o que é que eu tenho pena de já não viver?..


04 fevereiro 2016

Tó Zé

Tó Zé morava na capital, oriundo de uma família rústica.
Filho mais novo, vivia sob as regras familiares "da terra". Desde a escola primária, Tó Zé vestia calções acima do joelho, com vinco, e penteava a franja para a frente, colada à testa, parando um pouco acima das escassas sobrancelhas e das faces eternamente rosadas, selo genealógico da ruralidade. Não era bonito, não era interessante, não era inteligente; dava-se com os colegas, mas não fazia parte daquele mundo urbano. Era, digamo-lo, parodiando o nome próprio, um xoné.
No 7º ano do secundário ocorreu o acontecimento que mudou a vida de Tó Zé: um acidente de viação, "na terra", permitiu-lhe chegar à escola com um vistoso penso branco na fronte. O alvo curativo possibilitou-lhe responder repetidamente ao "o que é que te aconteceu?", tornando Tó Zé, antigo aplaudidor de quantos reclamavam ufanamente os holofotes do recreio, no mais procurado orador da turma, seguido de grande turba presa ao imenso relato das voltas e reviravoltas da camioneta do primo lá "na terra", despojo de onde ele se tinha libertado vitorioso, mas de testa aberta e ensanguentada.
Mas a maior qualidade do penso branco foi obrigar Tó Zé a erguer a sua franja saloia, penteá-la para trás, forçando-a com gel a manter-se nessa forma galinácea, para que não implicasse com o curativo.
A incipiente crista, nascida da força das circunstâncias, e o recente estatuto de "homem vivido e triunfante" deram a Tó Zé um novo alento. Agora, já parte dos galifões da turma, permitia-se arrastar a asa às meninas, levantando-lhes descaradamente as saias para gáudio dos seus colegas. Respondia torto aos professores; ria alto nos intervalos, olhando de esguelha para os que não faziam parte do seu círculo, e de manhã, encostava-se ao balão da cafetaria, beberricando pretensioso a bica adulta. Desapareceram as calças de fazenda com vinco e surgiram as calças de ganga... de marca!

As faces permaneceram rosadas, mas a nova testa, reluzindo orgulhosamente abaixo da poupa gelificada deram a Tó Zé a confiança necessária para singrar no mundo e na vida, mesmo depois que a calvície o alcançou.

02 fevereiro 2016

TRRIMM

TRRRIM (campainha da porta)
- Quem é?
- Bom dia, minha senhora. Eu e a minha colega, Maria José, queremos fazer-lhe uma pergunta. Se um dia um anjo aparecesse à sua porta...
- Com licença, vou desligar.
PLOC (telefone da campainha no descanso)

... se um dia um anjo aparecesse à minha porta, eu não saberia, porque não lhe dava tempo de dizer quem era...